O Mercado das Pulgas e seus tesouros
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segunda-feira, 21 de julho de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Que dia mesmo abrimos o Mercado das Pulgas?, questiona o pequeno senhor ao celular. Ah, isso. Foi no dia 8 de maio de 1988. José Antônio da Silva, 64 anos, não era marinheiro de primeira viagem. Antes de ser o dono da imensa loja de compra e venda de usados de nome inusitado, administrou 16 casas de carne. Era a rede Açougue Francês, que foi a maior do Paraná. De apenas uma delas, conta, saíam 400 bois picados por mês. Aos 12 anos, Silva já recebia como açougueiro profissional um ofício que aprendeu com seu irmão. Foi em uma tarde de 1981 que se viu obrigado a fechar todas as casas. Com a venda dos imóveis para cobrir as dívidas e acertos com os 138 funcionários, ficou desesperado ao ver seu patrimônio desaparecer. Na garagem da casa hipotecada restou seu único bem: uma Caravan 1976.
À uma hora da manhã de uma noite fria de 1982, o ano seguinte ao fechamento da rede de açougues, Silva saiu debaixo das cobertas onde dormia com a sua esposa, Juraci, e, sorrateiramente se dirigiu à garagem. Pensei: o que é a única coisa que me resta? O seguro de vida. É isso.
Para deixar um bem material à sua família, Silva tinha se disposto a entregar a própria vida. Dirigiu quilômetros pela BR-116, que liga Curitiba a São Paulo, com o vento batendo em seu rosto, na espera de uma possibilidade de um acidente. Nenhum carro veio em sentido contrário. Com aquela arejada, me dei conta que logo descobririam que não fazia sentido eu estar na estrada àquela hora. E que toda a minha idéia maluca seria em vão. Minha família não ficaria apenas sem o dinheiro, mas sem um pai.
Quando voltou para debaixo das cobertas, sua esposa notou que seu corpo estava gelado. Naquela mesma noite, ela me tranqüilizou: Você já saiu do zero uma vez e chegou ao topo. Agora, vai ser muito mais fácil, pois você já sabe o caminho. Junto com as palavras de apoio, veio a idéia de pegar alguns objetos de conhecidos em consignação para vendê-los.
Com algumas camas usadas e uma mesa com quatro cadeiras, começou o Intermédio Comércio de Objetos Usados, em um espaço com 200 metros quadrados no Cristo Rei. Dez anos mais tarde, depois de três mudanças de endereço, chegaria ao Água Verde, em um barracão de 7 mil metros quadrados.
Era ano de Copa do Mundo na França e Silva percebeu a necessidade de uma mudança de nome. Queria algo mais agressivo. A esposa, mais uma vez, trouxe a idéia. Mercado das Pulgas é um ponto turístico muito famoso na França. Lá funciona uma grande feira ao ar livre de usados, em que várias famílias possuem pequenos estandes. Mas, de uma só família, não tem maior que o nosso no mundo, comenta orgulhoso. Com as filiais na Rua 24 de Maio (1 mil metros quadrados) e na Marechal Floriano (2 mil metros quadrados), o espaço totaliza 10 mil metros quadrados, em que são distribuídos mais de 80 mil itens.
Com Mercado das Pulgas, Antônio José da Silva chegou ao nome que chocava e chamava à atenção. Para divulgá-lo, em 1998, com a autorização dos donos dos terrenos, pintou 1.500 muros pelo Estado. Só não perguntou se podia à prefeitura, de quem recebeu uma ligação dizendo que estava realizando uma prática ilegal. Muitos outros telefonemas chegaram. As pessoas queriam saber se exterminávamos insetos ou se vendíamos talco para pulgas, diz.
Aos poucos, Silva transformou o negócio em seu próprio museu. Ele tem dó de vender as peças, afirma Josiane, que trabalha com seu pai, seus irmãos Jefferson e José Carlos, além de seu jovem filho Victor. O mais engraçado é que mesmo depois de 20 anos, as pessoas continuam ligando perguntando o por quê do nome ou se não fazemos dedetização, completa Josiane. Nos objetos que seu pai guarda carinho especial, como em uma estátua do personagem Amigo da Onça, ele coloca uma etiqueta com as palavras Não vender.


