Gilson Camargo‘‘Voltei mais nacionalista e valorizando muito nossas coisas’’, diz o artista plástico e professor Fabiano Dalla Bona após uma temporada na ItáliaPara muitos brasileiros, a saída para uma vida melhor é mesmo a do Aeroporto: basta carimbar o passaporte, embarcar para o exterior e ser feliz para sempre. Esse é um pensamento comum. Mas muitos dos que viveram essa experiência descobriram, lá, que o melhor dos mundos ainda é aqui. Nem mesmo fatores como economias estáveis, segurança e salários mais altos - que indicam uma qualidade de vida maior - conseguiram segurá-los.
Entre os que retornam, não estão apenas os chamados dekasseguis, descendentes de japoneses que são contratados em massa para trabalhar nas fábricas da terra do Sol nascente e sofrem com as longas jornadas de trabalho. Muitos dos que formam o grupo dos ‘‘repatriados’’ tinham, além mares, atividades mais interessantes e menos estressantes do que a rotina paranóica de uma grande linha de produção nipônica.
A estudante Juliana Cecyn, 24 anos, viveu cinco anos na Bélgica. Tinha visto permanente para morar no país e, além de estudar, tocava, com o marido, uma empresa de locação de carros. O projeto de encontrar uma vida melhor lá fora durou cinco anos. Hoje, reinstalada em Curitiba, ela é uma - digamos assim - brasileira fanática. ‘‘Daqui ninguém me tira mais’’, proclama Juliana, que agora pretende viajar muito dentro dos limites nacionais para conhecer melhor o país. ‘‘É impossível um brasileiro ser feliz morando na Europa’’.
Arquivo FolhaO Brasil e os brasileiros têm uma alegria muito especial, diz a cantora Denise Sartori, que morou três anos na Inglaterra
‘‘Na europa a qualidade de vida superior traz muitas vantagens, mas, no final, não compensa’’, diz Juliana, que separou-se depois de voltar ao Brasil. O clima frio da Bélgica (que chega a -20 graus no inverno e +15 no verão) colaborou para o retorno, mas não foi o único fator. ‘‘Não tem nada melhor do que morar no teu próprio país. Lá, os costumes são muito diferentes e você se sente um estrangeiro o tempo todo. Isso faz com que você tenha a sensação de que não pode inventar muitas coisas: na tentativa de se adaptar, está sempre seguindo o modelo dos outros, seja no jeito de vestir ou no comportamento’’, diz. ‘‘O preconceito e a falta de informação sobre o Brasil também continuam grandes. Eles pensam que aqui só tem florestas: chegaram a me perguntar se eu sabia o que era televisão’’.
O artista plástico e professor de italiano Fabiano Dalla Bona, 28 anos, é outro brasileiro que voltou mais nacionalista depois de uma longa temporada no exterior. Ele morou 2 anos e 2 meses na Itália, na cidade de Reggio Calabria, no sul do país. ‘‘No Brasil, as pessoas tem mania de criticar tudo: é comum ouvir que aqui nada funciona que para tudo se dá um jeitinho. Temos que perder esse complexo de inferioridade e valorizar nossas coisas, mesmo com as limitações e diferenças que existem. Na Itália, por exemplo, o transporte também é problemático e em tudo sempre acontecem atrasos nos horários’’. Apesar do gosto pela língua, cultura e culinária, ele não pensaria mais em trocar o Brasil pelo país da torre de Piza. ‘‘Não existe lugar melhor do que a sua casa, more você em Nova York, Curitiba ou Borrazópolis’’. Um dos fatores que mais incomodavam Dalla Bona era as diferenças no relacionamento pessoal. ‘‘É mais difícil fazer amigos. Enquanto aqui você conhece uma pessoa e já convida para ir na sua casa, lá, demora muito mais para que a confiança seja conquistada’’, exemplifica.
A cantora lírica Denise Sartori passou três anos na Inglaterra, estudando canto. As facilidades de uma economia estável e a maior valorização da arte naquele país, e na Europa em geral, não foram o bastante para segurá-la. ‘‘Na Inglaterra tudo funciona, do transporte à defesa do consumidor. No lado profissional, em três anos lá trabalhei mais do que em toda a minha carreira no Brasil. E seria fácil eu ficar, porque tenho nacionalidade italiana e na época recebi propostas de trabalho’’, lembra. Como Dalla Bona, ela também sentiu muita falta dos padrões nacionais de comportamento. ‘‘Mas a alegria do Brasil e do brasileiro me fizeram ter certeza que queria voltar, além da saudade dos amigos e família. Nosso carinho e informalidade, para mim, foram mais importantes do que a organização de lᒒ.

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