O melhor lugar do mundo é aqui
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quinta-feira, 30 de outubro de 1997
Fabiano Camargo 
Gilson CamargoVoltei mais nacionalista e valorizando muito nossas coisas, diz o artista plástico e professor Fabiano Dalla Bona após uma temporada na ItáliaPara muitos brasileiros, a saída para uma vida melhor é mesmo a do Aeroporto: basta carimbar o passaporte, embarcar para o exterior e ser feliz para sempre. Esse é um pensamento comum. Mas muitos dos que viveram essa experiência descobriram, lá, que o melhor dos mundos ainda é aqui. Nem mesmo fatores como economias estáveis, segurança e salários mais altos - que indicam uma qualidade de vida maior - conseguiram segurá-los.
Entre os que retornam, não estão apenas os chamados dekasseguis, descendentes de japoneses que são contratados em massa para trabalhar nas fábricas da terra do Sol nascente e sofrem com as longas jornadas de trabalho. Muitos dos que formam o grupo dos repatriados tinham, além mares, atividades mais interessantes e menos estressantes do que a rotina paranóica de uma grande linha de produção nipônica.
A estudante Juliana Cecyn, 24 anos, viveu cinco anos na Bélgica. Tinha visto permanente para morar no país e, além de estudar, tocava, com o marido, uma empresa de locação de carros. O projeto de encontrar uma vida melhor lá fora durou cinco anos. Hoje, reinstalada em Curitiba, ela é uma - digamos assim - brasileira fanática. Daqui ninguém me tira mais, proclama Juliana, que agora pretende viajar muito dentro dos limites nacionais para conhecer melhor o país. É impossível um brasileiro ser feliz morando na Europa.
Arquivo FolhaO Brasil e os brasileiros têm uma alegria muito especial, diz a cantora Denise Sartori, que morou três anos na Inglaterra
Na europa a qualidade de vida superior traz muitas vantagens, mas, no final, não compensa, diz Juliana, que separou-se depois de voltar ao Brasil. O clima frio da Bélgica (que chega a -20 graus no inverno e +15 no verão) colaborou para o retorno, mas não foi o único fator. Não tem nada melhor do que morar no teu próprio país. Lá, os costumes são muito diferentes e você se sente um estrangeiro o tempo todo. Isso faz com que você tenha a sensação de que não pode inventar muitas coisas: na tentativa de se adaptar, está sempre seguindo o modelo dos outros, seja no jeito de vestir ou no comportamento, diz. O preconceito e a falta de informação sobre o Brasil também continuam grandes. Eles pensam que aqui só tem florestas: chegaram a me perguntar se eu sabia o que era televisão.
O artista plástico e professor de italiano Fabiano Dalla Bona, 28 anos, é outro brasileiro que voltou mais nacionalista depois de uma longa temporada no exterior. Ele morou 2 anos e 2 meses na Itália, na cidade de Reggio Calabria, no sul do país. No Brasil, as pessoas tem mania de criticar tudo: é comum ouvir que aqui nada funciona que para tudo se dá um jeitinho. Temos que perder esse complexo de inferioridade e valorizar nossas coisas, mesmo com as limitações e diferenças que existem. Na Itália, por exemplo, o transporte também é problemático e em tudo sempre acontecem atrasos nos horários. Apesar do gosto pela língua, cultura e culinária, ele não pensaria mais em trocar o Brasil pelo país da torre de Piza. Não existe lugar melhor do que a sua casa, more você em Nova York, Curitiba ou Borrazópolis. Um dos fatores que mais incomodavam Dalla Bona era as diferenças no relacionamento pessoal. É mais difícil fazer amigos. Enquanto aqui você conhece uma pessoa e já convida para ir na sua casa, lá, demora muito mais para que a confiança seja conquistada, exemplifica.
A cantora lírica Denise Sartori passou três anos na Inglaterra, estudando canto. As facilidades de uma economia estável e a maior valorização da arte naquele país, e na Europa em geral, não foram o bastante para segurá-la. Na Inglaterra tudo funciona, do transporte à defesa do consumidor. No lado profissional, em três anos lá trabalhei mais do que em toda a minha carreira no Brasil. E seria fácil eu ficar, porque tenho nacionalidade italiana e na época recebi propostas de trabalho, lembra. Como Dalla Bona, ela também sentiu muita falta dos padrões nacionais de comportamento. Mas a alegria do Brasil e do brasileiro me fizeram ter certeza que queria voltar, além da saudade dos amigos e família. Nosso carinho e informalidade, para mim, foram mais importantes do que a organização de lá.


