O mapa da dor crônica
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de outubro de 2010
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Uma recente pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) - entitulada como Estudo Epidemiológico da Dor (Epidor) - realizada para traçar o mapa da dor crônica na cidade de São Paulo, revelou que 28,7% da população sofre do mal. Além do índice alarmante, a pesquisa relacionou a doença com fatores como escolaridade, renda, densidade demográfica, profissão e gênero. Esta é considerada a maior pesquisa já realizada no Brasil sobre a dor crônica e, pela população entrevistada, pode ser extendida ao restante do País.
Entre os dados, o Epidor mostrou que a dor está concentrada em regiões com baixa escolaridade. A prevalência de dor em pessoas com 15 anos ou mais de estudo chegou a 23,5% contra 33,7% nos analfabetos. A hipótese do estudo é que a falta de esclarecimento faça que as pessoas não procurem tratamento adequado. Ainda conforme os índices, a dor está mais presente na vida dos aposentados com 36%, autônomos, 35,7%, e donas de casa, 33,3%. A prevalência de dor nas mulheres chega a 34%.
Para a diretora da Sociedade Brasileira de Estudos para Dor (SBED), Fabiola Peixoto, os dados da pesquisa mostram como a dor é subdiagnosticada no Brasil. São números extremamente alarmantes, mas que não são diferentes do restante do mundo. Não é que o brasileiro sofre mais, ele sofre igual. Porém, a dor ainda é subtra-tada, comenta.
Mesmo com os altos índices, o que mais assusta é que as pessoas acham que ter dor é normal. De acordo com a pesquisa, das pessoas que sofrem com dor nas costas, 45% não utilizaram nenhum tipo de tratamento e 56% das pessoas que apresentaram dores crônicas nos membros inferiores também não utilizavam nenhum tipo de tratamento. As pessoas ficam anos convivendo com a dor, pois acreditam que ela faça parte do envelhecimento. Com isso, pessoas em idade economicamente ativas estão perdendo produtividade no trabalho e em suas funções dentro de casa, explica a diretora.
Para piorar a situação, o Brasil é um dos países em que mais há o uso indiscriminado de analgésicos e anti-inflamatórios, dificultando ainda mais o tratamento adequado. Para cada dor existe um tipo de medicamento mais indicado, além do tempo de utilização.
Porém, mais do que medicamentos, a diretora alerta que para o sucesso do tratamento, é preciso haver um acompanhamento multidisciplinar. Segundo ela, há uma série de fatores que devem ser consideradas para o tratamento, como o uso de medicamentos combinados a antidepressivos e relaxantes musculares, por exemplo. As ferramentas farmacológicas podem ainda ser vinculadas a técnicas como acupuntura, fisioterapia, psi-coterapia, pontua.
Tudo isso, de acordo com Fabiola, para que a dor crônica seja controlada, e o resultado seja uma melhor qualidade de vida. O objetivo do tratamento é que a pessoa possa viver o mais produtivamente realizando todas as atividades, com o mínimo de dor, ou seja, menos intensa e menos frequente. Ela (a dor) é uma doença e precisa ser vista por si só, independente da causa.


