O lado trash da aldeia
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quinta-feira, 24 de julho de 2008
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Por trás de um típico ''programa de índio'', há sempre um bom passeio transformado em tormento. Pelo menos é o que dizem as oito figuras da cidade procuradas pela reportagem para apontar as maiores roubadas de Curitiba no quesito lazer.
Ninguém questiona, por exemplo, a importância do Parque Barigui para os curitibanos. Mas visitar o espaço nos fins de semana, principalmente aos domingos, tornou-se uma tarefa hercúlea. ''É muita gente junta. E aquele som alto é insuportável!'', reclama a estilista Kamille Cunha, 31 anos.
Para a publicitária Erika Herkenhoff, 38, um passeio no parque deveria ser sinônimo de descanso, instrospecção e contemplação da natureza. Definitivamente, não é o caso da ''domingueira'' do Barigui. ''Aquilo virou um evento social. E o pior: você acaba encontrando gente que não gostaria de ver'', diverte-se.
Ainda na categoria parques, sobrou também para o centenário Passeio Público. Na opinião do ator e humorista Fábio Silvestre, 37, namorar por lá é a maior roubada de que se tem notícia. Ele chama a atenção para a movimentação das ''primas'' (apelido carinhoso das profissionais do sexo) e seus clientes. ''Atravessei muito o Passeio quando trabalhava no Centro. Já levei cantada até de macaco'', brinca.
Há anos sem frequentar o Passeio Público, a chef de cozinha Daniela Prosdócimo, 35, tomou um susto quando resolveu voltar com os filhos pequenos. Estranhou o mau cheiro e a magreza dos animais. Ela admite que talvez tenha idealizado o lugar onde passou bons momentos na infância. De qualquer forma, suas crianças adoraram o programa. ''Para quem é criado em apartamento e shopping, como eles, ver de perto qualquer bichinho andando é uma diversão''.
Por falar em shopping, o jogador de futebol Cristian, 27, critica a loucura dos curitibanos pelas vitrines, escadas rolantes e praças de alimentação. ''É um passeio sempre igual. Você dá uma volta, compra, lancha. Nunca muda'', afirma o meio-campista do Paraná Clube.
E no futebol? Qual o maior programa de índio? ''A pior coisa é se concentrar com o grupo durante um dia inteiro e acabar não jogando, ou entrando em campo no fim do jogo'', garante.
De hábitos menos esportivos, o produtor de TV Cyro Ridal, 48, lamenta a falta de opções na vida noturna de Curitiba. A começar pela inexistência, segundo ele, de um espaço para ouvir música e conversar que não seja uma ''balada''.
Mas a lista de reclamações continua: ''Não há um lugar para se tomar um café decente às 3 da manhã'', ''Os shows internacionais mais alternativos não passam por aqui'', ''Não existe mais cinema sem ser em shopping''...
Quando o assunto é comida, entra na roda o bairro símbolo da gastronomia local. ''Eu gosto de Santa Felicidade, mas almoçar lá no domingo é loucura'', diz a atriz e produtora cultural Karla Fragoso, 32. Ela se queixa das filas para entrar nos restaurantes e do sistema de atendimento. ''Não se consegue conversar. Os garçons oferecem comida o tempo todo e você passa o almoço inteiro apenas dizendo sim e não''.
Por fim, há quem queira distância até da simpática Feira do Largo da Ordem. ''É uma muvuca de turistas e curitibanos que compram qualquer bagulho só porque está exposto nas barracas'', afirma o artista plástico DW Ribatski, 26. Para ele, as feiras semelhantes de São Paulo são bem mais interessantes, porque apostam em produtos diferenciados.
Entre birras e broncas (sempre bem-humoradas), todos os entrevistados acima fazem questão de ressaltar a qualidade de vida dos curitibanos. Se o Barigui está um ''fervo'', aproveita-se o sol no Tanguá ou no Tingui. Santa Felicidade não é mais a única opção gastronônima da cidade, que tem bons restaurantes espalhados pelos bairros. E até os consumistas de carteirinha podem optar pelas vitrines menos badaladas do Centro.
''Curitiba é um lugar cosmopolita que ainda guarda características provincianas. Ao contrário do que acontece em outras capitais, aqui ainda é possível passear a pé ou de bicileta na rua. Temos de aproveitar esse lado simples e tranquilo da cidade'', diz Cyrol Ridal.
Trash mesmo, e sem escapatória, é o Carnaval curitibano, opina Fábio Silvestre. Mas esse só acontece uma vez por ano.


