O homem vai ser reconhecido não pelo que construiu, mas pelo que deixou de destruir
Pensador das questões ambientais, Luiz Eduardo Cheida é hoje um dos destacados autores nacionais em Biologia para o ensino do segundo grau. Reconhecido por suas posições, já percorreu quase todos os estados brasileiros e diversos países, a convite de empresários e governos, para expor suas idéias em palestras e cursos. Além de médico e professor, atualmente Cheida é membro efetivo dos Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) e Conselho Nacional de Recursos Hídricos e secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná. Já foi vereador e prefeito de Londrina, e, depois, seu secretário de meio ambiente. Nesta entrevista concedida ao caderno especial do Meio Ambiente, Cheida fala sobre os dilemas humanos da preservação e do desenvolvimento.
Folha de Londrina - Por que o homem degrada tanto a natureza?
Luiz Eduardo Cheida: Porque a vê somente como algo a lhe servir. A natureza é encarada como algo a ser transformado, algo a ser vencido. Por isso, tenta-se mudá-la, controlá-la, vencê-la. Ao subjugar a natureza, o homem entra em litígio com ela. A degradação é mera conseqüência.
Como isso acontece na prática?
Em Londrina, vá ao Museu Pe. Carlos Weiss. Veja a foto, em posição de destaque, que ilustra a luta pela conquista dessa terra. São homens triunfantes, empunhando seus machados. Os pés estão sobre uma imensa peroba abatida. Londrina ergueu-se onde antes havia uma exuberante floresta. O homem veio, lutou e venceu. A peroba abatida, a natureza prostrada diante do progresso. Progresso, sempre foi vencer a natureza. Por isso, é bonito ser moderno; feio é ser natural. Hoje, tentamos fazer um lago aqui, um jardim acolá, uma praça onde idosos e crianças fujam da fumaça e do ruído. Tentamos trazer de volta a natureza que desterramos. Não precisava ser assim.
Esse comportamento é natural, ou melhor, é da "natureza" humana?
Não. É natural para uma parte da humanidade. Aquela parte que acredita que o homem é o ser mais importante da natureza e que todo o resto da criação aí está para servi-lo. Esta visão antropocêntrica é própria da tradição judaico-cristã. Veja que não é da natureza dos índios a destruição. Sua natureza é a do convívio e respeito ao lado de tudo o que é natural. Para que a natureza pudesse ser agredida sem peso na alma, foi preciso dessacralizá-la, isto é, derrotar a visão de que cada animal e vegetal, ao lado dos fenômenos naturais (chuva, sol, ar, solo, trovão) eram sagrados. Como vou destruir uma floresta se ela é sagrada? Assim, espiritualmente morta, pudemos esquartejá-la e vendê-la como mercadoria.
E o comportamento inverso, como seria?
O certo são as ações que nos colocam de acordo com a natureza, não contra ela.
Existem aqueles que aceitam a degradação como algo inevitável, justificando-a com o desenvolvimento, a geração de empregos... Para estes, a destruição é inexorável e se justifica no suprimento das necessidades humanas. Como o Sr. vê esta questão?
É possível crescer sem destruir. Este modelo de civilização atual não é o único. Há alternativas. Não é possível desenvolver, gerar empregos e paz social ao lado da degradação ambiental pelo simples fato de que o homem (queira ou não) é natureza também. E, o futuro da Humanidade está na natureza. Por isso, alguns países já computam em seu PIB a destruição da sua natureza. A estupidez brasileira da década de 1970, quando o governo, no afã de atrair investimentos estrangeiros, anunciava: "vá poluir no Brasil, lá é mais seguro", parece cada vez menos possível. A verdade é que, no futuro, a espécie humana será reconhecida menos pelo que construiu e mais pelo que deixou de destruir.
Os governantes são coniventes com a destruição dos recursos naturais?
Quanto mais distante está a sociedade das preocupações ambientais, mais próximos da conivência com a destruição estão os governos.
O Sr. acredita que a sociedade tem consciência da necessidade de estancar a destruição e inverter a lógica do "desenvolvimento a qualquer preço"?
Não, não há esta consciência. Isso é um processo de aculturamento. Somos treinados para destruir. Adestrados para nos conformar com a fatalidade da degradação ambiental. O consumo é a nossa meta. Ter é mais importante que ser. Por isso, ambientalistas são tidos como sonhadores. Você pode falar mil vezes que o efeito estufa ameaça o planeta, que nada acontece. Só um choque, de grandes proporções ou o avizinhamento de uma hecatombe real é que pode parar a roda desta lógica imbecil e fazê-la girar ao contrário.
Como pensador, médico, ambientalista, professor e, agora, secretário estadual de meio ambiente, o Sr. acredita ser possível sensibilizar governo, empresários, enfim, a sociedade para uma mudança de comportamento?
Sim, porém é preciso lembrar que cada um defende os seus interesses. Não se pode esquecer que a sociedade é plural. Nem todos pensam e agem da mesma forma. O agricultor usa agrotóxicos porque é um delinqüente ambiental? Não! Usa porque o mercado exige. Se o governo incentivar a abertura de um robusto mercado de produtos orgânicos, certamente ele terá uma opção concreta de não mais usar veneno e ainda assim estudar e alimentar os filhos. A mudança de que a natureza precisa nem é tão dramática assim.
Qual é o principal problema ambiental do Paraná?
A falta de sua mata original. Desmatamos quase 80% das florestas do Paraná nos últimos 100 anos.
E por que este é o principal problema, dentre tantos outros?
A retirada da mata original altera o microclima local. Altera a velocidade dos ventos, a luminosidade, a temperatura, a umidade do ar. Os seres mais sensíveis, como insetos, fungos e bactérias desaparecem ou reduzem-se drasticamente. O solo, mais quente, torna-se menos rico em nutrientes e seres vivos. A erosão deste solo desprotegido envia para dentro dos rios quantidades enormes deste solo (só o rio Ivaí despeja por ano no rio Paraná cerca de 2 milhões de toneladas de sedimentos). A diversidade de mamíferos, peixes, répteis, anfíbios, aves e a microfauna, reduzem-se. Enfim, se reduz a biodiversidade do local.
Quais as conseqüências da perda da biodiversidade?
Todo ecossistema que reduz sua biodiversidade tem reduzido seu equilíbrio e a sua produtividade. Quanto maior a biodiversidade, mais equilibrado e mais produtivo o ambiente. Até por uma questão de lógica capitalista, se deve apostar pesado na recomposição das matas do Paraná.
Quem perde e quem ganha com a preservação dos recursos naturais?
Os que perdem são os que tratam os recursos naturais como infinitos e inesgotáveis. São aqueles que privatizam a natureza e a vendem enquanto mercadoria e os que concordam com isso. Os que ganham são os outros.
Qual a solução?
O mitológico Anteu, uma espécie de gigante que guerreava com os deuses, extraía a misteriosa força, com que derrotava seus adversários, do contato com sua mãe, Géia, deusa da Terra. Hércules, ao descobrir seu segredo, suspendeu-o no ar, impedindo que tocasse o solo. Longe da terra, as forças de Anteu esvairam-se e Hércules pode, então, derrotá-lo. Como no mito, ao distanciar-se da natureza, a espécie humana se enfraquece. Pior: mais alheia ao ambiente natural, suas atitudes hostis acabam por enfraquecer a própria natureza. Por mais simples que pareça, a solução está em se reaproximar da natureza.





