O homem que levou o samba aos tablados
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quinta-feira, 28 de junho de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Nos últimos anos, o Brasil vêm despontando no mundo da ginástica olímpica. O que pouca gente sabe é que por trás de cada série individual, cada solo, cada coreografia, existe um profissional que calcula cada movimento para transformar o esporte em um espetáculo.
O responsável pela conhecida coreografia ''brasileirinho'', executada pela gaúcha Daiane dos Santos, é Rhony Ferreira, de 40 anos, ex-ginasta e atual coreógrafo da Seleção Brasileira Ginástica Artística. No Pan-Americano deste ano, Rhony desempenhará também a função de mestre de cerimônias e locutor das provas de ginástica. Na academia Gustavo Borges, em Curitiba, onde é coordenador de fitness, ele concedeu a seguinte entrevista à FOLHA:
FOLHA DE LONDRINA - Quais são as expectativas da equipe brasileira de ginástica para o Pan-Americano deste ano?
RHONY FERREIRA - São as melhores possíveis. Em 4 anos a ginástica cresceu muito em termos mundiais. Nós eramos um país que não tinha uma expressão muito grande dentro do mundo da ginástica e hoje estamos entre os oito melhores do mundo. Para o Pan-Americano, tirando os países da Europa que estão sempre em primeiro, aqui na América, os Estados Unidos e o Brasil são a grande força da ginástica.
FOLHA - Nestes oito anos a ginástica ficou mais popular no Brasil e o nível técnico cresceu. Afinal o que aconteceu?
RHONY - Foi o seguinte. Há 14 anos, quando a professora Vicélia Florenzano assumiu a confederação (brasileira de ginástica) e a trouxe para Curitiba, juntamente com a Eliane Martins, que é a coordenadora das seleções, formaram um plano para fazer com que crescesse o esporte no Brasil. Nós temos um potencial físico - biotipo - muito bom, que não era aproveitado por falta de tradição. Aliás, se você parar para pensar, há uns 10 anos ninguém sabia o que era Ginástica Olímpica. Antigamente a gente ia pra fora do Brasil pra aprender as técnicas que eles tinham, principalmente nos países da ex-cortina de ferro. Pensando assim, elas fizeram um plano pra começar a implantar o mesmo método de trabalho que era feito na Europa, no Brasil. Claro que a gente teve que adaptar isso ao nosso povo, à nossa cultura e tudo mais. A partir de 1999 conseguimos trazer uma professora ucraniana pra Curitiba, a Iryna I'liaschenki, que tem um trabalho fantástico. Ela que começou com esta escola nacional de ginástica, que antes não havia, a gente copiava o que vinha de fora. Passamos a trabalhar este novo método que ela nos trouxe. Trabalhamos muito até chegar em Sidney com duas meninas, a Camila Comin e Daniele Hypólito. Na olimpíada seguinte já tinhamos uma equipe completa de ginástica, com seis meninas participando. Em 2001, a gente trouxe um russo, o Oleg Ostapenko, que é um grande campeão de várias olimpíadas. Ele trouxe várias diretrizes para o nosso trabalho, que já vinha sendo desenvolvida pela Iryna. Fomos aprendendo com eles e mesclando técnicas brasileiras com a rigidez e a disciplina que os russos e os ucranianos nos ensinaram e taí o resultado.
FOLHA - Isso se reflete na procura de novos alunos pela ginástica?
RHONY - Como conseguimos alguns resultados de grande expressão, a mídia nos ajudou. Quando um esporte começa a ser visto, você começa a ter interesse de muitas crianças. A ginástica é um esporte que atrai muito. Você fica pulando, saltando, podendo voar. Tanto atrai que no Pan você não encontra mais ingresso para a ginástica. Nos mundiais e nas olimpíadas também, o primeiro que acaba é a ginástica. Porque é um espetáculo. E quando há possibilidade de fazer isso no seu país, tão pertinho, isso atrai muito as crianças, tanto que hoje nós temos 700 crianças na escolinha.
FOLHA - A presença de temas brasileiros é uma novidade?
RHONY - Sim. Foi até um pedido da confederação e do Comitê Olímpico Brasileiro que a gente começasse a apresentar nas nossas seleções temas brasileiros. Eu acho isso bem bacana, porque a nossa música é muito rica, a gente têm influência de várias regiões do País onde tem instrumentos que só no Brasil tem. Por exemplo, fazer uma série com berimbau, agogô, surdo, cacheta. O pessoal não sabia o que era cuíca. A série da Jade, a nossa campeã brasileira, é toda feita em cima do som de berimbaus.
FOLHA - O trabalho do coreógrafo mudou a partir do momento que a ginástica incorporou elementos brasileiros? Ficou mais fácil ou mais difícil?
RHONY - Pra mim facilitou. Eu tenho a possibilidade de mostrar a cultura brasileira pro resto do mundo e não corro risco de outros países fazerem igual. Por exemplo, estamos fazendo a terceira coreografia da Daiane (dos Santos) que tem samba. A gente já viu algumas meninas latinas tentando colocar samba na coreografia, mas ficou muito parecido com salsa. Não era samba. Isso só nós conseguimos fazer. Então temos que usar isso a nosso favor, porque temos uma coordenação motora para samba muito especial, que ninguém no mundo tem. Se eu for usar um passo de balé, no Brasil, na Rússia, na Austrália, todo mundo sabe o que é. Agora, samba! Qual será o árbitro chinês que vai tirar uma nota da coreografia porque o samba não estava certo? Jamais. Agora, os elementos brasileiros eu gosto de usar, porque é novidade e a gente, de uma certa forma, tá começando a ditar tendências pro mundo.
FOLHA - Na sua avaliação, qual foi a melhor equipe brasileira que já disputou uma olimpíada?
RHONY - Com certeza foi a última, que foi pra Atenas. Foi a melhor equipe que já foi para uma Olimpíada, porque a do ano que vem vai ser melhor. As meninas que estão aí são excepcionais.


