No ano de 1934, às vésperas de Londrina ser oficialmente transformada em município, chegava por aqui um bebê no colo da mãe que não só cresceria com a cidade, mas se tornaria uma referência entre as empresas locais e entre as famílias de pioneiros. Francisco Ontivero, 78 anos, ex-ajudante de carroceiro, tornou-se o dono da rede de lojas que, há 43 anos, é sinônimo de mais conforto para os londrinenses: a Móveis Brasília. Como Londrina, Ontivero tem suas raízes no campo, mas não se intimidou diante dos avanços tecnológicos, transformando a empresa que começou vendendo móveis de fabricação própria em uma das maiores também no comércio de telefones celulares.
  A receita de Ontivero é conhecida, mas nem sempre perseguida com tanto afinco: pés e vaidade no chão. ‘‘Em todos esses anos, nunca juntei bens particulares, eu e minha família nunca fizemos questão de viver no luxo. Tudo o que temos está em nome da empresa, esta foi a forma de capitalizá-la. Se a gente começa a tirar para investir em benefício próprio, os negócios não vão para frente’’, ensina, para logo depois revelar: ‘‘Todo o meu capital está aqui. É o que conquistei em uma vida inteira de trabalho. Por isso olho com muito carinho para a empresa’’.
  Mesmo hoje, após tantos anos de trabalho duro, a simplicidade continua sendo sua marca registrada. Na pequena sala onde dá expediente, na Rua Santa Catarina (Centro), o calor é amenizado à moda antiga, por um pequeno ventilador. Dois andares abaixo, modernos aparelhos de ar-condicionado estão disponíveis para venda.
  Ontivero tem a companhia dos filhos Marcelo, Fabiana e Mônica, além da esposa Áurea, na gestão dos negócios, mas é ele quem assina toda a documentação da empresa, como sócio-gerente. Mesmo assim, o homem que trabalha desde os oito anos de idade – quando vendia com o pai as frutas e verduras produzidas na chácara da família, no hoje bairro Aeroporto – anda se sentindo meio ‘‘desempregado’’. Para ocupar o tempo que tem sobrado, ele se dedica a trabalhos voluntários. Atualmente é presidente do Abrigo dos Vovôs e da Escola Oficina Pestalozzi.
  Com voz pausada, ele revela detalhes de sua trajetória. ‘‘Abrimos a primeira loja em 1967, aqui no número 3.409 da (Avenida) Duque de Caxias. Na época a indústria do meu sócio, Letério Livotti, era famosa. Foi a primeira a fabricar móveis em série no Paraná. Praticamente não tínhamos concorrentes nesse tipo de comércio, e por também fabricarmos, conseguíamos vender por um preço melhor. Tínhamos muitos clientes da roça, fomos os primeiros a vender fogão a gás e, mais tarde, aparelhos de TV’’, relembra o empresário.
  Ontivero se orgulha em dizer que, quando a empresa nasceu, tinha um funcionário e hoje são cerca de 400, em 14 lojas distribuídas no Paraná (Londrina, Arapongas e Cornélio Procópio) e Santa Catarina (Balneário Camboriú, Blumenau e Itajaí). O crescimento, porém, não chegou de um dia para o outro. ‘‘Desde o começo Livotti pensava em abrir filiais, mas eu não quis’’, conta. A sociedade com o fabricante de móveis durou 23 anos, até Livotti morrer em 1990.
  Os anos que se seguiram foram os mais difíceis para Ontivero. Em 1993 os filhos do falecido sócio resolveram desmembrar a empresa, dando início a um período de readaptação, mas também de conquistas. ‘‘Em 92 estávamos com a empresa redondinha para crescer, mas aí os meninos não quiseram mais manter a sociedade. Foi complicado, tive que me equilibrar em metade da empresa. Eu não podia comprar a parte deles e eles não podiam comprar a minha.’’
  Aos poucos, Ontivero – que havia ficado com os direitos sobre o nome Móveis Brasília – e a família conseguiram retomar o crescimento. Na época da separação, a rede possuía nove lojas. ‘‘Nós ficamos com quatro e a outra parte ficou com cinco. Mas aí, para não dispensar funcionários, abri mais uma loja, na Rua Pernambuco. Depois vieram outras, inclusive algumas que tinham ficado para os ex-sócios, que acabaram voltando para nós.’’
  Ele se orgulha em dizer que os moradores tradicionais de Londrina – que hoje já têm filhos e netos – têm em casa pelo menos um eletrodoméstico comprado em uma das lojas da rede. ‘‘E sempre que vão trocar um móvel ou comprar um novo aparelho, acabam nos procurando.’’
  Quando questionado sobre o segredo para manter as vendas, mesmo diante da concorrência com os grandes magazines, ele revela alguns trunfos: ‘‘Nós financiamos o nosso cliente com um crediário nosso. Não vendemos só o televisor, o fogão ou a geladeira. Vendemos o dinheiro para o cliente’’. Para atrair compradores da classe B, a saída foi investir em móveis planejados, tornando possível mobiliar e equipar, em uma só loja, todos os cômodos da casa. Por fim, a empresa soube, no momento oportuno, investir na venda de celulares, e hoje comercializa no varejo e no atacado para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
  O empresário que não descansa parece estar sempre com um olho nas oportunidades do mercado e outro nos seus funcionários, citados em vários trechos da entrevista. ‘‘Vários deles estão conosco há muitos anos. São muitas famílias que dependem desta empresa’’, diz, revelando um dos combustíveis que não o deixam parar.

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