O homem que aprendeu a desenhar com as crianças
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
A porta da casa de Carlos Dala Stella no Bairro de Santa Felicidade, marcada pelo número 899, é discreta, por onde não passa mais de um carro, e esconde os 2.500 metros quadrados do terreno que vem logo atrás. Uma relação que, nas palavras do mesmo, é sintomática de seu trabalho. Tanto a residência como o novo ateliê, cuja construção foi completada em janeiro, foram desenhados pelo próprio, ainda que assinada por um arquiteto, atribuição que, dentre as várias que pratica, não está no currículo.
Dala Stella, 47 anos, trabalha com tinta, grafite, telas, papel, cimento, vidro. ''Quando eu conto que foram os poemas as coisas que mais fiz na vida, é aí que as pessoas ficam mesmo sem entender'', explica. O novo ateliê, de dois pisos e 300 m2, com muitas entradas de luz e vista para o jardim com pinheiros e a residência, tem sido palco de sua produção mais recente. Antes, desde 1991, utilizou um espaço de 60 m2 no primeiro andar da casa, em que tinha dificuldade de manejar as suas telas maiores - seu próximo quadro vai ter três por quatro metros.
Desde os 18 anos, registra cada momento do trabalho em cadernos que vão de 20x20 centímetros (o menor deles), ao maior, de um metro por 30 centímetros. São 36 volumes. No dia 26 de fevereiro de 2007 escreveu no de número 33 uma lista com 13 livros não-publicados, entre os prontos e em andamento. Os já editados são quatro: ''O Caçador de Vaga-lumes'', de poemas e contos, de 1998; ''Riachuelo, 266'', de contos e crônicas, de 2000; ''Bicicletas de Montreal'', de fotografias e desenhos, de 2002; e ''O Gato Sem Nome'', de recortes, reproduções, ilustrações e poemas, publicado em 2007.
Este último, de capa vermelha, e edição finalizada a mão, com 300 exemplares numerados, é vendido em Curitiba no Beto Batata do Alto da XV por R$ 70. Ao mostrar o livro, Dala Stella levanta na altura do rosto e assopra. O sopro dá volume às duas sequências de recortes feitos a estilete. Uma delas é nomeada ''A dor de Eleotério'', em homenagem ao livreiro que deixou Curitiba no início do ano.
''Foi muito interessante ver como ele sentiu a minha dor. Foi difícil ficar sem a cidade e os amigos. Ainda sonho em voltar a Curitiba'', conta Eleotério de Oliveira Burrego, 51, que desde o dia dois de fevereiro vive em São Paulo, onde é o gerente da Livraria Martins Fontes da Praça do Patriarca. Dala Stella pensou em homenagear o amigo quando soube da agressão física que Burrego sofreu em 2003. Eleotério, livreiro desde 1975, viu na obra o seu sofrimento de deixar a cidade.
São Paulo
A capital paulista também é palco de venda das obras do curitibano Dala Stella. ''Gosto de todo o trabalho dele, que é bom em vários suportes. É uma obra limpa, criativa e séria'', afirma Sabina de Libman, dona, desde 1971, da galeria Arte Aplicada. Ela vende recortes e telas do artista há um ano. ''Fiquei encantada quando conheci a sua arte. Ele é absolutamente desconhecido em São Paulo, mas de um talento excelente'', complementa Sabina. Sobre o fato de Dala Stella ser pouco conhecido, a galerista é de poucas palavras. ''Alguns artistas fazem muito marketing. Enquanto outros trabalham.''
Sabina se diz impressionada também com as fotos feitas pelo artista. Quando morou em Montreal, no Canadá, de março a dezembro de 2001, Dala Stella encontrou nas bicicletas, no caminho do ateliê na Mont Royal à sua casa na Saint-Laurent, um motivo para, em um primeiro momento, fotografar, e, depois desenhar/pintar, o que mais tarde resultou no já citado livro ''Bicicletas de Montreal''. Não se tratava de uma relação especial com o objeto, mas com a forma resultante de bicicletas abandonadas, por vezes retorcidas ou cobertas de vegetação e neve. ''Fui juntando fotos de bicicletas sem me perguntar por quê. A única coisa que eu queria era essa alegria sem razão, miúda mas autêntica, que entra pelos olhos'', explica o autor no posfácio.
Mais tarde, recebeu a oferta de um canal de venda de obras de arte na televisão para produzir dúzias de desenhos de bicicletas por mês, os quais teriam venda garantida. ''Um dos fatos que explica a minha invisibilidade é que não quis ser o artista plástico de um tema só, que pinta apenas bicicletas.'' Um de seus livros prontos, ''Majik Mahgid - A História de um Rosto'', é mais um exemplo de sua exigência autoral. ''Recebi vários nãos. Todos diziam que seria muito caro produzir. Me perguntaram: o trabalho é bom, mas quem é você?''. Por fim, um editor se propôs a produzir o livro com a condição que fosse dividido em três volumes. Mas a divisão, na opinião do artista, perderia o sentido da obra.
Baseado em um sonho de Dala Stella, ''Majik Mahgid'' é uma sequência de 200 recortes feita em cima de um livro de música, parecida com a que fez sobre Eleotério, mas desta vez colorida e mais complexa, em que forma novos rostos a cada virar de página. ''Colocar um sonho no papel é devolver ao original, de onde ele veio.''
Dala Stella sopra mais uma vez para mostrar o efeito do livro que também é obra de arte. ''Para funcionar, tem que ser manuseado bastante.'' Ao fim, guarda-o em uma das 85 pastas com projetos em andamento que tem em seu ateliê. ''É um livro de recortes para adultos que também pode ser visto pelas crianças. Por que os livros de recortes têm que ser apenas para os pequenos?''.


