Curitiba – ‘‘Jura, vadia!’’. É um dos cumprimentos de uma tribo que busca inspiração nos menos favorecidos. São os dançarinos de hip-hop de escolas e academias de dança. Eles não vêm da periferia e em grande parte nunca colocaram os pés em uma, mas, quando se vestem para expressar sua arte, podem ter tanto estilo e todos os trejeitos de um verdadeiro morador do ‘‘gueto’’.
  Na 7ª edição do Festival Internacional de Hip-Hop, realizado em Curitiba semana passada, essa tribo se reuniu para mostrar seus movimentos e aprender novos estilos com professores vindos dos Estados Unidos e da França.
  Lando Wilkins veio da Califórnia para dar um ‘‘workshop’’ (oficina) pela primeira vez. Para ele, que aprendeu a dançar nas ruas pobres da costa oeste norte-americana e já dançou com astros do hip-hop como Snoop Dogg, os participantes do evento têm muita paixão ao dançar, mas nunca poderiam ter o mesmo estilo de quem viveu a
realidade das ruas.
  Wilkins ensina um mix de estilos, considerando sua categoria como ‘‘free style’’ (estilo livre). ‘‘Gosto de misturar os vários tipos de hip-hop com outras danças como salsa e até bal钒, explica. E o público parece aceitar bem seus movimentos. ‘‘Me sinto mais valorizado aqui, os alunos prestam mais atenção, estudam mais o passo’’, conta. E, contrariando a fama nacional, o bailarino considerou os curitibanos muito calorosos.
  Então, para aprender novos movimentos e as raízes da dança de rua o ideal é ir ao gueto norte-americano? Nem sempre. O professor curitibano Eládio Prados Neto, coreógrafo do grupo Street Xtreme, viajou duas vezes a Paris para se atualizar no estilo. ‘‘Fui à França porque existe uma corrente forte de algumas divisões do hip-hop por lá. Quis buscar uma tendência diferente’’, explica.
  Eládio tem cerca de cem alunos em suas aulas de street dance (dança de rua), nenhum com origem da periferia. Na opinião dele, o estilo atrai tanto porque está em evidência na mídia. ‘‘Você vê gente dançando nos videoclipes, a música está nas rádios, é uma arte em destaque.’’
  Para o professor, um bailarino de academia pode dançar tão bem quanto um b-boy (uma das denominações de quem dança hip-hop) do subúrbio, mas ‘‘sempre vai faltar o algo mais’’. Esse algo mais é chamado ‘‘feeling’’ (do inglês, sentimento).
  A nutricionista Renata Valetin, 28 anos, conta que se transforma quando está nos ensaios ou nas apresentações. ‘‘Quem me vê no dia-a-dia não imagina que eu tenho este outro lado. Mas, apesar de gostar muito de fazer parte deste mundo, às vezes me sinto como uma estrangeira. Acho que existe um pouco de preconceito com quem não vive na realidade da periferia’’, conta. Ela, que já dançou jazz, mas abandonou a sapatilha, se diz atraída pela Dança de Rua principalmente pela energia dos movimentos.
  A estudante Carolina Kluger, de 14 anos, gosta da liberdade que o estilo proporciona. ‘‘Você pode se vestir como quiser, seja de shorts curto ou calça largada. Nos passos, não tem certo ou errado. É só sentir a música e se movimentar’’, comenta.
  Dançando desde os 11 anos, Carolina, que começou no balé, diz gostar da cultura hip-hop como um todo. ‘‘Como é uma dança de muita atitude, acho que qualquer pessoa pode se sair bem, independente da origem’’, conclui.

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