O guardião das plantas raras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
O botânico Gertd Hatschbach, de 83 anos, nunca sentou nos bancos universitários para estudar a história e a evolução das plantas. Como auto-didata, no entanto, acabou se tornando um dos maiores conhecedores do assunto, o que lhe rendeu o título de Doutor Honoris Causa em Botânica, concedido pela Universidade Federal do Paraná.
A paixão de Gertd começou pelos idos de 1943, percorrendo o estado do Paraná ao lado do pai, para observar espécies da flora. A partir daí não parou mais. Hoje ele cuida do Museu Botânico de Curitiba, que fica no Jardim Botânico. Quarto maior do Brasil, o museu conta com um acervo de 330 mil espécies em seu herbário, iniciado a partir do acervo pessoal de Gertd.
Apaixonado pelo que faz, Gertd continua viajando para coletar novas espécies. Também se dedica a cuidar das plantas raras ou ameaçadas de extinção, que estão sendo cultivadas em uma estufa. O objetivo é fazer com que germinem e possam, no futuro, povoar e enfeitar logradouros públicos de Curitiba.
Aos 83 anos, ele costuma brincar dizendo que está sendo conservado com suas espécies à base de álcool e naftalina. O álcool é usado para desidratar as plantas que são embaladas e catalogadas cientificamente e a naftalina para espantar as traças que costumam visitar o museu para ''beliscar'' as folhas das quais ele cuida como parte de sua família. Nessa entrevista, ele conta um pouco de seus mais de 60 anos de convívio com essa natureza.
Folha de Londrina - De onde veio esse seu interesse pelas plantas?
Gertd Hatschbach - Eu comecei muito jovem, meu pai era colecionador de orquídeas, e com 10, 11 anos, eu ía atrás dele, na Serra do Mar, no Litoral, coletando plantas. Eu comecei colecionando insetos, tinha uma coleção muito bonita de coleópteros, besouros. Comecei a fazer a biologia de alguns insetos, onde se criavam, daí eu tinha que pegar as plantas para ver onde eles viviam. E cada vez eu pegava mais plantas do que insetos. Assim, fui trocando, fiquei só com a parte do herbário, dei a parte de insetos para o Museu de História Natural, mas lá acabou se perdendo muita coisa, fiquei muito triste porque tinha muita coisa bonita e boa.
Folha - A coleção acabou se profissionalizando a partir de quando?
Gertd - Lá pelos 16, 17 anos eu já tinha um bom herbário. Foi crescendo, estava tudo em casa, até que o prefeito Ivo Arzua me convidou para fundar um museu de botânica. Foi em 1965. Me deram uma casinha pequenina, no Passeio Público, só para coisas de Curitiba, depois me deram uma caminhonete, daí fomos mais longe. Nessa época já passei o meu material para lá, devagarzinho, porque não cabia tudo no museu. Daí já começamos a ir para o interior, para o Norte, era muita estrada de chão.
Folha - O senhor já sabia como coletar, classificar, guardar as plantas de forma correta?
Gertd - Meu pai pegava material e secava sempre. Ele tinha recebido informações de como fazer de Berlim. Depois, teve um grande botânico, Frederico Carlos Hoehne, que era diretor do Instituto de Botânica de São Paulo, que me deu as principais orientações de como preparar todo o material. O primeiro exemplar que peguei já tirei nessa norma técnica. Eu tinha uns 13 anos.
Folha - Onde aprendeu botânica?
Gertd - Eu sou auto-didata, aprendi sozinho. Sou doutor honoris causa pela Universidade Federal do Paraná. Eu, na verdade, estudei química na Federal. Hoje não sei nem onde está o diploma.
Folha - Continue contando a história do Museu Botânico de Curitiba.
Gertd - O museu foi evoluindo. Eles mandaram dois profissionais para me ajudar, me deram uma caminhonete para poder coletar, viajar. Depois nos mudamos para o Horto do Guabirotuba, já bem maior. Lá chegamos a 100 mil espécies. Viemos para o prédio atual depois que Jaime Lerner tomou posse na prefeitura.
Folha - O senhor já encontrou muita planta rara ou em risco de extinção nessas viagens?
Gertd - Achei 500 e poucas espécies novas para as ciências, em diversos estados, do Rio Grande, Mato Grosso, Minas Gerais. Já tem umas 150, 160 espécies que foram dedicadas a meu nome, como a Mylcia Hatschbachii, por exemplo. Tem a Fuchsia Hatschbachii, que é uma planta apoiante, com flores vermelhas. Eu peguei uma espécie na Serra de São Luiz, depois alguém descobriu e deve ter levado algumas estacas para a França e reproduziu lá. Eu não sabia de nada, até que alguém me falou que agora estão comprando mudas de Fuchsia Hatschbachii na França.
Folha - O senhor ainda viaja para coletar amostras?
Gertd - Viajo. Quando é uma viagem muito grande, a gente fica um mês, dois meses para preparar todo material depois. Viajando, a gente fica no máximo 25 dias.
Folha - Quantas pessoas vão?
Gertd - Quatro, o motorista, um ajudante, eu e minha esposa. No começo das viagens, nós fazíamos acampamento, com barraca. Mas eu desisti, porque em uma viagem para a Bahia chegaram a atirar em cima de nós. Estávamos longe, no campo, em uma área aberta, parou um caminhão e começaram a atirar em cima da barraca, por sorte estávamos fora do lugar. Depois eles fincaram o pé. Era um local bem retirado, podia ser o dono da terra, não sei. Muitas vezes o dono de terra chegava, em estradas secundárias. Uma vez, perto de Bonito (no Mato Grosso), eu encostei, passamos por baixo de uma cerca, daqui a pouco encostou uma caminhonete e saíram dois caras com revólver, eu só pensei: ''Ai, ai, ai, aí vem encrenca''. Daí vem a conversa boa: ''Não, eu só queria pegar essa planta''. No final, eles acabam convidando para irmos na fazenda, almoçar com eles. Conversando delicadamente tudo dá certo, isso já aconteceu muitas vezes comigo. Hoje também tem o problema de que eles têm muito medo de pessoas que querem invadir as áreas. Hoje é bem mais perigoso.
Folha- Em suas andanças pelo Brasil, como o senhor observa o meio ambiente nesses anos todos?
Gertd - Conheci esses campos na década de 1940, era tudo florescido. Hoje é tudo pinus, pasto, plantas invasoras. Hoje está demasiadamente diferente. As pessoas estão acabando com tudo. Ainda têm reservas, espaços de preservação, mas na época de seca muita coisa pega fogo, às vezes até por safadeza de vizinhos. Quando eu ía de Curitiba a Foz do Iguaçu, na década de 40, os campos eram lindos, quando chegava em cima da Serra da Esperança, era um pinheiral só. Depois a estrada ía pelo meio do mato, com aquelas brutas perobas. Não levou dez anos, não tinha mais nada, hoje não tem mais nenhuma peroba. Só tem os parques estaduais. Antes, os campos em setembro e outubro eram todos florescidos, coloridos, hoje tem um periodozinho que ainda tem alguma coisa, mas tem muitas espécies introduzidas, muito pasto, só pinus, eucalipto. cana-de-açucar. Dá uma tristeza, o homem é um bicho desgraçado.


