O frescor da horta caseira
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de abril de 2018
Amanda de Santa<br>Especial para a FOLHA 

A busca pelo contato com a natureza e consumo de alimentos frescos e livres de agrotóxicos têm feito muitas pessoas, mesmo as que vivem em apartamentos, resgatarem o antigo costume de cultivar hortas. Os benefícios de ter plantas, hortaliças e temperos naturais em casa são inúmeros e vão além da melhoria da saúde. Para muitos, tornou-se um hobby, uma terapia, virou sinônimo de qualidade de vida.
A arquiteta Silvana Panichi, que mora em um apartamento no centro de Londrina, usou o pequeno espaço da sacada para plantar uma horta vertical. "O que mais me incomodava era o fato de não ter verde", conta. No local, ela cultiva mais de 20 diferentes espécies, como manjericão, sálvia, orégano, hortelã e até uma jabuticabeira. "Venho aqui todos os dias, vejo se estão precisando de água. É um cantinho muito gostoso", descreve.
Para Silvana, tomar um chazinho das folhas de hortelã colhidas do pé, fresquinhas e cuidadas por ela, sem veneno, não tem preço. Ela diz que a horta requer alguns cuidados, mas o que importa de verdade é gostar das plantinhas. A busca por conhecimento é necessária, porque cada espécie tem suas particularidades. "Alecrim aqui não vai, mas ainda vou insistir. Vai de achar o lugarzinho certo", confessa.
O professor de olericultura do curso de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Eli Carlos de Oliveira, diz que para ter uma horta caseira é preciso ficar atento a três fatores importantes: luz, temperatura e água. "Indicamos a semeadura ou cultivo orientando de norte a sul para que a planta receba luz na maior parte do dia", explica. A luz é imprescindível para a fotossíntese e influencia nas alterações fisiológicas da planta, como a indução floral. Aquelas que recebem pouca claridade tendem a estiolar, ficam tortinhas e debilitadas.
Mas de nada adianta ter luz e não molhar as plantinhas. Oliveira lembra que todo ser vivo precisa de água e que esta representa cerca de 80% da massa de uma planta. Ele explica que a necessidade de água está relacionada com a espécie e o tempo de vida. "Se é novinha, precisa de menos. Quando cresce, bebe mais água", afirma. O professor enfatiza que a água é fundamental para garantir a sanidade das plantas.
A temperatura também impacta no crescimento das plantas. Cada espécie tem uma época para ser semeada, plantada e colhida. O ar-condicionado da varanda do apartamento, por exemplo, pode alterar esse ciclo de desenvolvimento. "Temperaturas muito frias paralisam o crescimento", ensina o professor. Altas temperaturas também podem levar as plantinhas à morte. Por isso, é importante ficar atento e, quando necessário, trocar os vasos de lugar. "Quem se dispõe a ter uma horta tem que dar carinho e amor para as plantas."
COMO PLANTAR E CUIDAR
A Primavera é a melhor época do ano para plantar. É quando as temperaturas estão amenas e há uma boa quantidade de incidência de luz durante o dia, ou seja, melhor aproveitamento dos recursos indispensáveis para o cultivo. Hoje, casas especializadas fornecem informações, sementes, mudas e os insumos necessários para o plantio, como as terras vegetais uma mistura de terras argilosas e arenosas e um pouco de carvão e pedras e húmus de minhoca.
Segundo o professor, as hortaliças, por exemplo, devem ser plantadas em solos arejados e não duros. No solo estão presentes os nutrientes da planta, por isso, é importante fazer a manutenção durante todo o cultivo com esterco, adubo, água e outros resíduos. Oliveira orienta que o manejo inclui a retirada de folhas secas ou amareladas e a observação da presença de algum tipo de praga ou doença.
Para espantar insetos, ele recomenda o uso de repelentes naturais, como alguns tipos de plantas cravo de defunto, arruda, fumo e extratos vegetais. "A melhor forma de controlar doenças é não deixar a umidade se desenvolver nem no solo nem no ambiente", avisa. Outra dica importante, segundo o professor, é fazer uma cobertura bem fina de terra na hora de semear, para que a planta consiga romper a barreira e crescer saudável.
ROTACIONAR E DIVERSIFICAR
Existem plantas perenes que ficam na terra, como o pé de laranja, por exemplo e outras anuais, como é o caso de boa parte das hortaliças. Elas crescem, desenvolvem, florescem e morrem. Terminado o ciclo, o professor orienta rotacionar as plantas, ou seja, escolher outra espécie para semear no mesmo local. Além de harmonizar o cultivo, ajuda no controle de pragas. Oliveira recomenda, também, diversificar a horta caseira com diferentes hortaliças, legumes e temperos.

HORTA HIDROPÔNICA NO APARTAMENTO
Desde agosto do ano passado, a sacada do apartamento da família do engenheiro mecânico Giovani Galeti de Oliveira está diferente, mais verde, viva e bonita. Foi "decorada" com 28 diferentes espécies de plantas em uma estrutura construída com canos de PVC. Ele conta que a ideia surgiu a partir de uma conversa com o pai. Ele queria ensinar as filhas, de forma lúdica, que as "plantas não nascem no mercado", precisam de cuidado especial.
A família pesquisou informações sobre materiais e como fazer uma horta hidropônica. "Fiz uma planilha para medir dados, como o pH da água e a condutividade elétrica. Minha filha verifica e faz a manutenção", conta. Um balde bombeia a água com oxigênio e nutrientes pelos canos. Oliveira diz que preferiu fazer uma horta hidropônica porque ocupa menos espaço e faz menos sujeira. Segundo ele, tem sido um aprendizado para a família toda.
O cultivo caseiro já começou a influenciar nos hábitos alimentares das crianças. Oliveira conta que a filha mais velha passou a comer mais salada. A quantidade é suficiente para as cinco pessoas que vivem no apartamento, em São Bernardo do Campo (SP). Para o engenheiro, o cuidado com a horta virou um hobby. Além de o verde gerar uma sensação de frescor, ele diz que gosta de surpreender amigos e parentes ao servir à mesa as hortaliças colhidas em casa.


