O foca que chegou de terno e gravata
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Antônio Claret de Rezende 
Meu primeiro contato com a Redação da Folha aconteceu numa tarde quente e ensolarada de janeiro, dia 20, em 1962. Com a timidez característica de todo ex-seminarista, cheguei ao jornal levado pela amizade de um conterrâneo, Jacélio Dumas Coutinho, que me apresentou a outro mineiro de carteirinha, o então funcionário municipal e jornalista José Carlos Abrahão, depois professor da Universidade Estadual de Londrina. Desconhecendo a informalidade do ambiente, apresentei-me devidamente paramentado, com o terno e a gravata que julgava mais apropriados à importância da ocasião - e não era. Desnecessário dizer que o (ul)traje atraiu olhares debochados e nada discretos, ao desfilar pela Redação.
Foi Abrahão quem me conduziu até o sizudo Nilson Rímoli. Sem meias-palavras, Nilson foi direto ao assunto: Ah! Então você quer ser jornalista?! Já escreveu alguma coisa? E me passou logo a primeira tarefa - alguns truncados telegramas da Asapress, UPI... as agências noticiosas da época, para pentear. Isto é, recompor o texto e dar-lhe o necessário trato. No final da tarde já era o mais novo foca.
Permaneci 18 anos na Folha, ocupando-me de diferentes tarefas e espaços - da política ao noticiário nacional, do Turismo ao Cinema e às notícias do Estado, conforme as circunstâncias. Em determinada época, fiz também revisão, madrugadas a dentro, respirando chumbo na Oficina.
Mas, foi na Redação que muito aprendi, especialmente com Nilson e João Rímoli. Daquele, pela convivência maior, só posso dizer que foi mestre e amigo, durão mas sensível, companheiro de caminhadas e longas conversas pelas ruas silenciosas e sonolentas da Higienópolis.
Anos mais tarde e depois de muitas andanças, o reencontrei na Redação do jornal Indústria e Comércio, de Curitiba - ele, editando o noticiário agrícola e eu, cuidando da política. Por fim, ainda acompanhei Nilson em seus últimos e sofridos dias na Santa Casa da capital, de onde não logrou sair com vida.
Ressalto que a coluna Turismo deve ficar na conta de um dos muitos pioneirismos da Folha de Londrina. Já o Destaque, que escrevi durante muitos anos, foi a primeira coluna a sair diariamente, com assinatura, pois antes, só Militão assinava Sociedade. E a primeira delas analisava a queda, na véspera, de Nikita Krutschev, o poderoso chefão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Com a coluna também sustentei encarniçada luta contra a Câmara de Vereadores, que desejava trocar para Arthur Thomas o nome da Avenida Higienópolis.
Nada contra o representante da companhia inglesa responsável pela fundação de Londrina. Mas, porque Higienópolis era nome consagrado, que caíra no gosto do povo. Junto com o então vereador Walter Gastaldi mobilizamos os moradores da avenida, exclusivamente residencial, fazendo correr um abaixo-assinado de ponta a ponta da via, sem que uma só assinatura favorável à mudança tenha sido colhida. Gastaldi segurou a tramitação com infindáveis apartes ou manifestações, obstruindo o processo de votação e sustentando as discussões, praticamente sozinho, até altas horas. No final, prevaleceu o bom-senso.
Dentre tantos nomes do passado, registro o do Miroca, o 22º vereador da Câmara de Londrina, pois sendo mero repórter, agia como se fosse um dos nobres pares, na Câmara Municipal. Autodidata, fazia a cobertura das sessões. Com o passar do tempo, tornou-se verdadeiro expert no Regimento da Casa. Ermiro Barbosa Lemes segurou muita votação ou conseguiu que outras tantas matérias fossem aprovadas, assoprando, na hora certa, o que deveria ou não poderia ser feito.
Lá pelos anos de 1963 a 66, incumbia-me, logo que chegava ao jornal, às 14 horas, pedir à telefonista da central telefônica da cidade ligação para falar com a sucursal de Curitiba. Esta só se completava após as 20 horas, e ainda com todas as deficiências. Da capital, Hugo Santana passava as notícias, que eram precariamente gravadas e posteriormente transferidas para o papel...
Bem antes disso, fui designado pelo Milanez para cobrir a Prefeitura, o que me fez conviver bem de perto com o recatado prefeito José Hosken de Novaes, sempre avesso à publicidade e às badalações. Vem dessa época a amizade que tenho pelo cidadão e homem público exemplar, de quem fui mais tarde, já na capital, chefe de gabinete durante seus três anos de vice-governador, e secretário particular, nos dez meses em que governou o Paraná.


