Curitiba - Pode parecer contraditório. Mas para o mundo liberal do swing funcionar, é preciso respeitar um certo código de ética. A começar por uma das máximas do meio: ‘‘Não cobice a mulher do próximo a não ser que o próximo esteja muito próximo’’.
  Trocando em míudos, é importante que todos os envolvidos estejam cientes da situação. Daí que, para os swingers, os parceiros só se traem quando não há o consentimento mútuo. ‘‘Swing sim, traição não’’ é outro lema dos praticantes, que juram de pés juntos que sempre usam preservativos.
  Ter um casamento estável e sólido também está entre os requisitos básicos. ‘‘O swing não é uma tábua de salvação para a relação. Pelo contrário. O casal que está mal normalmente acaba se separando depois de experimentar a troca’’, afirma Camargo, dono do Desiree Club.
  E o mais importante: separar sexo e sentimento. ‘‘Minha mulher pode transar com um cara a noite inteira. Se, no final, ela deitar no colo dele e fizer carinho no rosto, o pau vai quebrar’’, diz o empresário.
  Cenas de cíume existem, porém são raras e facilmente contornadas. O caso recente do homem assassinado por um marido transtornado, durante uma sessão de swing em Campo Grande, é uma trágica exceção que confirma a regra. ‘‘Eles provavelmente eram inexperientes. Os iniciantes querem ir direto ao ponto, não entendem que é legal conversar com as pessoas, conhecer o meio’’, opina Ronaldo, do Kasal 6969.
  Cientista social e mestrando em Antropologia na UFPR, Valtemar Sartorelhi é autor de uma dissertação sobre o universo swinger. Intitulado ‘‘Corpo, Sexualidade e Gênero: Troca de Casais no Cybe-respaço’’, o trabalho investiga a busca de parceiros pela internet e discute o conceito de ‘‘trocas simbólicas’’.
  ‘‘No swing, o que se troca é o corpo do parceiro. Amor e carinho ficam de fora da nego-ciação’’, afirma Sartorelhi. De acordo com ele, há uma confusão entre a troca de casais e o chamado relacionamento aberto. ‘‘São duas coisas diferentes. O casal swinger está junto o tempo todo, ao contrário de quem pratica o relacionamento aberto’’.
  Para Sartorelhi, a internet é a responsável pelo boom do swing mundo afora, e não apenas por sua amplitude e caráter agregador. Ao garantir o anonimato, a rede possibilita que os casais experimentem aos poucos o estilo de vida liberal. Em sua pesquisa, o sociólogo identificou uma série de etapas nesse processo, que começa com a fantasia individualizada de um dos parceiros.
  O passo seguinte é dividir a fantasia com outro. Depois, vem a fase de imaginar a participação de terceiros durante a relação. Até que a internet entra no jogo, por meio da navegação em sites especializados e do contato via MSN e Orkut (há incontáveis comunidades para swingers no portal de relacionamentos). Encontros são marcados e, se houver ‘‘química’’ entre os casais, a troca pode acontecer – normalmente em outra data.
  Ao contrário de outros acadêmicos que se dedicam ao tema, Sartorelhi não acredita que a popularização do swing é fruto da emancipação sexual da mulher. Segundo ele, a troca de casais traz um forte componente machista, travestido de igualdade de direitos. ‘‘Os swingers costumam dizer que as mulheres definem as regras do jogo e controlam tudo. Mas basta analisar os anúncios de casais na internet para constatar que o corpo feminino é usado como objeto dessa propaganda’’, afirma.
  A maioria dos anúncios, publicados em portais dedicados exclusivamente ao swing, apresenta somente fotos da mulher. E mesmo os textos priorizam a descrição física e as preferências da parceira. ‘‘Isso faz parte da lógica machista da sociedade, não é uma característica exclusiva do swing’’, completa Sartorelhi.
  Os casais, obviamente, discordam. ‘‘Não acho o swing machista nem feminista. A feminilidade é só um cartão de visita, pois a mulher é mais sensual’’, diz Mi, casada com Jef. ‘‘Homem nunca é bonito’’, ironiza Cris, a outra metade do Kasal 6969.
  Mas por que apenas o bissexualismo feminino é incentivado? ‘‘O bi masculino não tem muita aceitação. Os clubes inclusive proíbem as relações homossexuais’’, afirma Ronaldo. Ele ainda conta que os homens com esse tipo de tendência raramente se revelam. E quando o fazem, costumam formar turmas separadas. ‘‘Nada contra, só não tenho a mínima vontade de experimentar’’, enfatiza. (O.G.)

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