O exercício dos cinco sentidos
Depois de um aquecimento feito com capoeira, o somaterapeuta Marcelo Leal começa o exercício dos cinco sentidos. Todos devem se observam e elencam os três colegas que considera mais interessantes, por quaisquer motivos. Cada etapa é desenvolvida com uma dessas pessoas, em ordem decrescente de interesse, por assim dizer.
O terapeuta explica que se trata de uma forma de aprender a lidar com a rejeição. Se alguém não o escolheu, não é porque não gosta de você. Ele só não quer fazer o exercício com você, afirma.
Na seqüência, os parceiros se sentam no chão, frente a frente, com as pernas praticamente entrelaçadas. Com os rostos quase colados, conversam sobre assuntos aleatórios. Depois, são incentivados a sussurar alguma coisa no ouvido do colega. É a fase auditiva do trabalho.
Na etapa visual, deita-se com a cabeça no colo do outro. A tarefa consiste em observar a face do colega. Ou melhor, fazer um mapeamento afetivo do rosto, como diz Leal.
Na mesma posição também é feito o mapeamento tátil da face do parceiro. Mais uma vez, o terapeuta interfere: É um companheiro de trabalho, e não um boneco, que está na sua frente. Não faça massagem, nem carinho. Apenas toque. Como se trata de uma demonstração, o exercício termina sem as fases olfativa e gustativa. Para não cansar, diz Leal.
Por fim, a turma é organizada em novas duplas, que devem se revezar em uma espécie de jogo de confiança. A idéia é que um sirva de guia para o outro, que, de olhos fechados, fará um passeio de 10 minutos do lado de fora da academia.
Encerrada a parte corporal do encontro, é hora da leitura, da troca de impressões. E quando alguém se refere a um colega na terceira pessoa, o terapeuta adverte: Fale diretamente, olhando para o outro. Seja direto e franco. A idéia, segundo Leal, é romper com os pactos de mediocridade estabelecidos no dia-a-dia.
Ele conclui a oficina convidando os presentes a integrar o próximo grupo curitibano de Soma. Também aproveita para rebater alguns pontos polêmicos sobre a terapia levantados pela reportagem.
O valor mensal (R$ 180,00) não cobre apenas a minha remuneração. Ainda tenho de pagar o aluguel do espaço, passagens e hospedagem, esclarece. Quanto ao estigma de que na somaterapria todo mundo transa com todo mundo, ele brinca: Se rolar um bacanal, me convidem, porque eu nunca participei de nenhum.
No dia seguinte, por telefone, duas participantes falaram sobre a experiência. Para a estudante de Artes Cênicas Marina Nucci, 22, a Soma pode ajudá-la a se descobrir melhor. Ela fez a oficina acompanhada do namorado e diz que ambos pretendem integrar o grupo em vias de formação. Faço terapia tradicional e acho que esse trabalho com o corpo pode me acrescentar muito, afirma.
A arquiteta Annamaria Pires, 55, ficou sabendo do encontro pela internet e se inscreveu junto com a irmã. Me interessei por essa visão integrada do corpo, do psicológico e do social, diz. Ela acredita que, na Soma, poderá dissolver suas couraças. Minha proposta é fazer um tipo de saneamento básico consciente em mim mesmo, diverte-se. (O.G.)





