O espelho da cidade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de dezembro de 2004
Célia Guerra<br>Reportagem Local 
Arte, poesia, histórias de vida. Há muito mais do que água no leito dos rios. A relação das pessoas e cidades com os rios constrói muito mais do que desenvolvimento econômico. Nomes famosos como o Sena, na França, já inspiraram filmes e se tornaram não só pontos turísticos mas também exemplos de recuperação ambiental, como é o caso do Tâmisa, em Londres. Nem toda cidade tem um rio que a margeia. No caso de Londrina, a falha geográfica foi resolvida através da visão e decisão de administradores como o ex-prefeito Antonio Fernandes Sobrinho, que pensou no Lago Igapó como uma solução para o problema da drenagem do Ribeirão Cambezinho, dificultada por uma barragem natural de pedra.
O lago foi projetado em 1957, depois que a prefeitura desistiu de dinamitar a barragem. Inaugurado no dia do aniversário de Londrina, em 10 de dezembro de 1959, foi um dos melhores presentes que a cidade ganhou até hoje.
Do ponto de vista ecológico, o Igapó, explicam especialistas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), provocou um impacto ambiental na cidade: é uma represa artificial. Mas diferente de um dano ao meio ambiente, ele adquiriu seu papel na vida de cada londrinense. Alterou a paisagem transformando-se numa zona de contemplação e lazer, resume o professor Galdino Andrade, da área de microbiologia, que é doutor em ecologia.
A ecologia, na visão da professora Lúcia Helena Batista Gratão, da disciplina de hidrografia, não pode excluir o homem como ser da natureza. Assim, o Igapó, mesmo não tendo mais mata ciliar, contribui para a melhoria da qualidade de vida da população. É um lugar de encantamento, de beleza. E isso, também é fundamental, justifica.
Já o ambientalista João Batista Moreira Souza, assessor do Núcleo de Recursos Hídricos da Prefeitura de Londrina, e encarregado do plano de gestão ambiental para a bacia do Ribeirão Cambé, diz que o Igapó tem um papel importante no microclima da cidade. Ele contribui com áreas de maior frescor e, além de propiciar a prática de esportes, oferece a pesca. O lago é utilizado para a prática de canoagem para esportistas, até mesmo por atletas da equipe brasileira da modalidade.
Mesmo sendo o ícone, ou o cartão-postal da cidade, o lago pede socorro. O cenário futuro do Igapó, sem uma revolução ambiental, é caótico, profetiza o ambientalista.
Atualmente, o principal ponto de poluição do lago é o que se chama de poluição difusa, trazida especialmente pela água da chuva. Há ainda pontos de esgoto clandestino adaptados às galerias pluviais e a água despejada por empresas de lava-rápido.
João Batista reconhece que houve melhorias significativas com relação aos agentes poluidores. As grandes indústrias instaladas nas margens do Cambé, por exemplo, não podem mais ser acusadas dessa ação. Elas assumiram o tratamento de seus dejetos, informa. Batista lembra que a cidade está à frente de muitas outras grandes cidades, quando o assunto é esgoto. O sistema de coleta já atinge 67% da cidade; desse total, 100% recebe tratamento, garante.
O sistema de drenagem urbana (bueiros e galerias pluviais), segundo ele, permite o escoamento rápido das chuvas para as regiões de vales e rios próximos. Em Londrina, os principais receptores das galerias pluviais são o Ribeirão Cambé, que forma o Igapó, e o Ribeirão Quati. A Catedral Metropolitana, de acordo com o ambientalista é o marco divisor das duas bacias.
A drenagem urbana cumpriria realmente o seu papel se o lixo das ruas não tivesse o mesmo destino. Na construção do sistema, entretanto, não se mensurou a quantidade de lixo urbano que também cairia nos vales levado pelo volume e a força da água das chuvas. Numa chuva torrencial, o Igapó recebe mais de 300 caçambas de lixo, presume. Desse volume, segundo o ambientalista, menos de 15% flutua e pode ser retirado pelas equipes de limpeza da prefeitura. O restante fica no fundo do lago, acelarando o processo de assoreamento que atinge os quatro lagos que integram o complexo Igapó.
O lago Igapó 4 é o que mais sofre com o assoreamento, já perdeu 30% de sua área, garante o ambientalista. O Igapó 1, além do assoreamento, sofre contaminação por metais pesados, como o chumbo, cuja origem não se conhece. É preciso mudar o conceito de drenagem, incluindo ações como retenção e filtragem, alerta.
O despejo clandestino de esgotos traz mais um dano, a eutrofização, ou seja o crescimento exagerado de algas, estimulado pelo aumento também excessivo de nutrientes na água, como o nitrato e o fósforo. A decomposição microbiana dessa vegetação causa esgotamento do oxigênio e a asfixia de peixes.
A mudança do cenário, para o ambientalista, exige adequação do sistema pluvial por parte do município, mas depende muito mais da concientização da sociedade. O rio começa na nossa casa, no nosso quintal, ilustra. A população, de acordo com João Batista, desconhece que o destino de um simples papel de bala jogado no cruzamento das ruas João Cândido com a Pio XII, no Centro da cidade, com a primeira chuva vai parar dentro do Igapó.
Por isso, ele defende a criação de um programa intensivo de informação e conscietização da população, seguido da adaptação dos bueiros. Uma proposta é o projeto de criação do endereço hidrográfico, apresentado durante a campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheleti (PT). De acordo com João Batista, a cidade será dividida em bacias e sub-bacias. Cada rua terá um código de identificação de acordo com essas bacias, que constará também no cadastro de cada imóvel. A prefeitura deverá, então, planejar a gestão do espaço urbano por regiões hidrográficas. Outra proposta, em estudo pela administração municipal, é a transformação do lago num grande centro de lazer e esportes não motorizados, além da regulamentação da prática de esportes motorizados.
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