As crianças jogando bola na calçada, as conversas dos vizinhos em frente ao portão e a igreja que se impõe, soberana, na paisagem compõem um cenário típico das cidades do interior. Muitas árvores e ruas pouco movimentadas reforçam essa imagem. Porém, estamos a poucos quilômetros do Centro, no Santo Inácio, na região Oeste da cidade, às margens da Rodovia do Café (BR-277) e ao lado do mais frequentado parque da cidade, o Barigui, e dos bairros Campina do Siqueira, Mossunguê e Saturno.
Há 131 anos, os primeiros imigrantes europeus - alemães e poloneses - fundararam ali uma colônia. Segundo os registros históricos da cidade, esses trabalhadores dedicaram-se ao corte de lenha, abandonando a lavoura, já que, no início do século 19, o acesso até a região central, onde havia o comércio, era muito difícil. O lugar foi batizado com o nome de Santo Inácio Mártir, cuja paróquia funcionou durante 31 anos em uma pequena casa de madeira. ''Depois de três anos, conseguimos reformar a igreja, que foi reinaugurada ano passado'', conta o padre italiano Fiorenzo Longhi, no Brasil há seis anos. ''Nosso trabalho agora é reunir novamente os fiéis aqui do bairro que passaram a frequentar outras paróquias'', ressalta o pároco.
A dificuldade de acesso pode ter contribuído para preservar o Santo Inácio, hoje conhecido como um dos locais mais tranquilos da capital, com vocação residencial. A rua Tobias de Macedo Jr. é a principal via, a única opção para entrar e sair do bairro. Quase todas as demais ruas não têm saída, o que aumenta a sensação de segurança para quem vive ali. ''Nos 40 anos em que vivo aqui, só uma vez tentaram me assaltar. E eu consegui colocar o ladrão para correr'', lembra o comerciante Clementino Kozlowski, de 75 anos, que criou os três filhos no Santo Inácio e agora vê os dois netos crescerem, brincando à vontade pelas ruas do lugar.
O sossego dos moradores só é quebrado nos finais de semana em que uma das casas localizadas no ponto mais alto do bairro torna-se palco de festas ''rave''. Segundo Kozlowski, nessas ocasiões as ruas estreitas do bairro viram estacionamento para centenas de veículos. Isso, porém, não é motivo para que ele pense em mudar. ''Não saio daqui de jeito nenhum'', garante.
Com população em torno de seis mil habitantes, o Santo Inácio recebe grande número de jovens não só durante as festas de música eletrônica, mas também pelo fato de reunir as Faculdades Integradas Espírita e um campus da Universidade Tuiuti do Paraná. A ausência de comércio variado no bairro é apontada por alguns moradores como uma das poucas desvantagens. ''As áreas verdes e esse ambiente calmo compensam'', afirma Maria Cristina Marin, mãe de um menino de quatro anos e de um bebê de sete meses. Ela, que morava no Novo Mundo, onde há grande concentração de lojas e agências bancárias, teve de se adaptar quando, há um ano, mudou para um dos muitos sobrados do Santo Inácio.''Mas, valeu a pena. Adoro a tranquilidade daqui'', diz.
A família Marin confirma a tendência apontada pelos empresários do setor imobiliário que têm investido na região que abrange o Santo Inácio e o Mossunguê. Em breve, mais um condomínio de casas será inaugurado ali. De acordo com o Instituto de Pesquisa e Estatística Bridi, a segurança e as opções de lazer como salão de festas, piscinas, quadras poliesportivas e spas fizeram com que aumentasse de modo expressivo a procura pelos chamados condomínios horizontais, principalmente a partir de 2005.
Quando saiu de Santa Catarina para morar no Santo Inácio há 46 anos, Getúlio Farias encontrou uma situação bem diferente. ''Isso aqui era tudo um banhado. Comprei esse terreno e construí uma casinha. Passamos muita dificuldade, mas aqui criei meus três filhos'', conta. Dono de uma lanchonete, Farias é outro ''fã'' do bairro e se preocupa com o crescimento da região. ''Aqui é sossegado e as várias linhas de ônibus facilitam a circulação, porém, o trânsito já está ficando tumultuado'', afirma.

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