Quando era criança e morava na pequena cidade de Tapiraí, no interior de São Paulo, Içami Tiba queria ser caminhoneiro, viajar e conhecer todo o País. A idéia foi retomada mais tarde, na época em que cursava Medicina na Universidade de São Paulo (USP). Seu desejo era virar um médico nômade, que atenderia de porta em porta, socorrendo os necessitados. Com o tempo, percebeu que talvez o projeto não fosse tão bom, pois o seu trabalho não teria continuidade.
Praticante de judô desde os 8 anos, ele teve o primeiro contato com a Psiquiatria quando deu aulas para os funcionários desse setor na USP de como segurar os pacientes - muitas vezes, raivosos. No último ano de Medicina, Içami optou pela área. No período de residência, ficou indignado com a falta de um departamento específico para adolescentes. ''Só havia uma ala infantil, que ia de 0 a 18 anos, como se todos fossem iguais'', conta o psiquiatra, que viu, então, uma brecha para desenvolver um novo tipo de atendimento.
Ele achava que todas as doenças mentais tinham origem no conturbado período de hormônios em descompasso, mudanças no corpo, espinhas e rebeldia. ''Na época, a mentalidade era a de que o adolescente não era tratável e que essa fase correspondia ao luto pela perda da infância'', comenta. ''Eu nunca concordei com isso, tive uma adolescência muito feliz.'' Foi o ponto de partida para seus estudos, que culminaram com a fundação do setor de adolescentes no Hospital das Clínicas de São Paulo.
O segredo de seu sucesso na área? ''Tratava os casos mais sérios com remédios, mas também usava a psicoterapia, conversava bastante.'' De lá para cá, foram mais de 72 mil atendimentos psicoterápicos a adolescentes e suas famílias; quase 3 mil palestras em escolas, empresas e associações; 14 livros sobre educação dos filhos (com mais de 700 mil volumes vendidos, quatro deles adotados pelo MEC e pela Secretaria de Estado de Educação nas escolas públicas) e 12 vídeos educativos.
Durante 15 anos, foi professor do Instituto Sedes Sapientiae, ligado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E é membro da Equipe Técnica da Associação Parceria Contra Drogas (APCD) e do Board of Directors of International Association of Group Psychotherapy. Decidiu parar de dar aulas e investir mais nas palestras, pois acha que, desse modo, mais pessoas têm acesso à informação.
Hoje, aos 61 anos, ele vai a cidades de norte a sul do Brasil, incluindo lugarejos de 5 mil habitantes. Finalmente, realizou seu sonho de viajar pelo País distribuindo conhecimento. Além das conferências, atende em seu consultório pessoas de todas as idades - mas, principalmente, adolescentes e seus pais. A tradicional psicoterapia não é a única alternativa: ele criou um serviço de consultoria familiar, com quatro sessões.
Às vezes, as pessoas não estão dispostas a fazer terapia, querem apenas um diagnóstico da situação. A consultoria funciona para esse fim, apontando o que está errado. Depois, cabe à família buscar tratamento ou não.
Ele é casado há 35 com Maria Natércia Martius Tiba, empresária da área de decoração de Natal, com quem tem três filhos: André Luiz, advogado de 31 anos, a psicóloga Natércia, de 29, e Luciana, de 21, que cursa Direito. ''Jamais agi como terapeuta na educação de meus filhos. Não pensava em teorias na hora de dar uma bronca'', conta ele. ''Meu perfil de pai era do tipo bravo.''
Para Içami, os valores fundamentais que os pais devem passar são disciplina, gratidão, cidadania, ética e religiosidade - o que, para ele, é a capacidade de reconhecer que todos dependemos das outras pessoas. Esse conjunto compõe a base fundamental de sua Teoria da Integração Relacional, que norteia todo o seu trabalho.
''Os pais estão engolindo muito sapo hoje, criam 'parafusos de geléia', que espanam quando se aperta.'' Parafusos de geléia? ''São aqueles jovens que, por causa da vida fácil em casa, não conseguem terminar nenhum projeto. É só toparem com alguma dificuldade na vida que param.'' Na sua opinião, os pais estão sendo permissivos demais em resposta à educação autoritária que tiveram, e também para se redimirem do pouco tempo que passam com os filhos.
O maior desafio na educação, para ele, é formar um verdadeiro cidadão. ''O mais importante é impor limites aos jovens e ensiná-los a fazer as coisas desde cedo. Não basta dar o bom exemplo, pegando um papel que cai no chão. Faça a criança pegá-lo.'' Ele também é contra castigos, acha que não funcionam, porque se repetem. ''É melhor deixar o adolescente sofrer as consequências. Quando ele quebra algo, faça ele consertar com seus próprios meios.''
Quando o assunto são as drogas, Içami é categórico. ''Para usá-las, o jovem já transgrediu vários valores. Há uma banalização do uso da maconha, ela é a porta de entrada para outras coisas piores.'' Mas ele acha que o maior vilão é o álcool, liberado e alardeado em comerciais de TV. ''Ele muda o funcionamento do cérebro, dilui o superego e acaba com a ética da pessoa, que se sente corajosa para fazer qualquer coisa.''

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