O discreto charme da burguesia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de dezembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Primeiro a mulher sorri. Tem os dentes alvíssimos, alinhados e hálito de hortelã: masca um chiclete discretamente. Ri, mas não em demasia. Veste pela primeira (e úlitma) vez uma roupa da moda, bem talhada, costurada com fios de ouro. Leva uma taça à boca e a borda do vidro - tão fino que parece papel - fica levemente marcada com o batom quase invisível que retoca os lábios da mulher. As bolhas da champanhe estouram no céu da boca dela. Sorri novamente um sorriso de bonequinha de luxo que será eternizado nas páginas de alguma coluna social. É a doce vida.
A cena acima é, naturalmente, inventada, o que não a torna incomum. Mulheres lindas sorriem aos montes em coquetéis de lançamento, em eventos de moda, em dias sem sol. São sempre sorrisos efêmeros, doces, sem crise, que poderiam passar despercebidos não fosse o olhar atento de um profissional contratado justamente para captar os melhores ângulos, os olhos mais bonitos, as poses mais naturais.
Os fotógrafos que cobrem as melhores festa da sociedade curitibana (toda alta sociedade é igual, dizem) são simpáticos, bem vestidos, sapatos brilhantes, cabelos cortados e barbas bem aparadas. Com o tempo, acabam se tornando um reflexo do mundo que cobrem, só que estão do outro lado e sabem disso. Sempre carregam o equipamento fotográfico a tira colo e algumas vezes têm receio de falar o que pensam verdadeiramente sobre a sociedade. Os nomes mais quentes - aqueles que sempre rendem boas fotos e devem estar nas colunas sociais - muitas vezes não são citados, como se fossem na verdade um dos nomes de Deus.
Pode parecer uma contradição, mas fotógrafos que cobrem a sociedade não têm vida social. Estão sempre correndo entre um evento e outro: no final da manhã na inaguração de uma loja no shopping, no meio da tarde no lançamento de uma coleção de moda de uma conhecida marca, madrugada a dentro no evento de final de ano de uma multinacional.
Namoradas, amigos, aniversário da avó, almoço ao meio dia, corrida na academia. A enumeração fica em segundo plano quando colocada ao lado da lista de quem deve ser fotografado: arquitetos de sucesso, advogados influentes, empresários poderosos, estilistas de destaque, políticos da vez, sobrenomes de peso e as mulheres desses homens. É uma roda viva que começa em um click e termina estampada em alguma coluna social.
"Já fotografei a mesma pessoa em três eventos diferentes no mesmo dia. Em todos, sem a pessoa repetir a roupa", conta Naideron Jr., 26 anos, há quase 10 envolvido com a profissão. Se a mulher citada troca de roupa três vezes por dia, isso acontece porque os eventos existem, as pessoas querem ser vistas e têm onde aparecer. Na outra ponta, há quem registre tudo isso. O mercado é basicamente movimentado por esses pilares.


