O destino da cidade nas mãos das pessoas
Foi no dia 11 de novembro do ano passado, quando o jornalista Guto Rocha passou pelo Bosque a caminho de um compromisso de trabalho, que começou um dos movimentos populares mais intensos de Londrina nos últimos anos. Indignado com as árvores arrancadas pela prefeitura na pista de caminhada da área de lazer onde a administração municipal planejava abrir passagem para a Rua Piauí , ele publicou um texto em tom de crítica e algumas fotos do estrago no Facebook. Começava naquele momento o Ocupa Londrina, movimento que conseguiu barrar as obras no Bosque e, atualmente, mobiliza-se para garantir definitivamente que a rua não seja aberta.
No Facebook, Guto encontrou outros indignados com a falta de respeito pelo patrimônio público. Juntos, passaram a promover protestos no Bosque, com direito a funeral das árvores e manifestações culturais realizadas por artistas da cidade. A mobilização, porém, não foi suficiente para cessar o barulho das máquinas. No dia 16 de novembro, diante das retroescavadeiras que retirariam o que restou das árvores do Bosque, Guto se agarrou a um dos troncos e, após trinta minutos de muita tensão, conseguiu que os equipamentos fossem desligados. Se eu não tivesse abraçado os troncos, acho que a rua estaria aberta, acredita.
A foto do jornalista abraçado aos troncos, registrada pela fotógrafa Gina Mardones, da FOLHA, ganhou o mundo através da internet. Perdi a conta de quantas vezes a imagem foi compartilhada, diz. A partir desse episódio, o movimento adquiriu mais força e, ao final de novembro, os manifestantes já tinham obtido mais de duas mil assinaturas em abaixo-assinado contra o projeto da prefeitura.
Guto, que sempre valorizou o meio ambiente na vida pessoal, mas nunca tinha se engajado politicamente para defender esses ideais, acredita que o Ocupa Londrina transformou sua história. Sempre fui indignado, mas descobri que, juntos, temos muito mais força, defende.
Lago Igapó
Antes das redes sociais, em 1998, londrinenses também se mobilizaram para evitar que o local onde hoje está o Aterro do Igapó fosse tansformado em um parque temático particular. Os primeiros manifestantes do movimento Igapó é nosso foram as famílias da escola Seta, que utilizavam o espaço para atividades escolares e não queriam que a área fosse doada para um empreendimento. Quem conta essa história é a professora Mira Roxo, que mobilizou os pais e alunos. A gente fez várias atividades no aterro. Mostramos nossa indignação e ganhamos a atenção da imprensa. A sociedade civil abraçou a causa e o espaço foi finalmente transformado em parque ecológico, recorda.
A web designer Solange Lorenzo já tinha participado do Igapó é nosso e, assim que viu a mobilização dos londrinenses em prol do Bosque, pelo Facebook, foi para o local. Fiquei indignada, pois acho maravilhoso ter um Bosque no Centro da cidade. Ativista das mais engajadas, ela conta que se surpreendeu com a reação positiva das pessoas em prol do espaço de lazer. Senti que temos voz, avalia.
A professora Mira que também defende o Bosque acredita que as redes sociais facilitam a mobilização, mas não incentivam a presença física nas manifestções. Segundo ela, na época do Igapó é nosso as pessoas iam ao local para saber notícias sobre o movimento, o que não acontece com o Ocupa Londrina. Todas as informações estão na internet, mas a presença dos cidadãos ainda é fundamental.





