O desafio de reduzir a mortalidade infantil
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terça-feira, 06 de novembro de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Todo mundo que tem um mínimo de conhecimento sobre saúde pública sabe que mortalidade infantil sempre teve ligação direta com as condições sócio-econômicas da população. Ou seja, crianças sem acesso a saneamento básico, filhos de pais sem escolaridade ou sem dinheiro para comprar medicamentos correm muito mais risco de morte do que os filhos da classe média, que dispõem de água tratada, médico e remédio garantidos.
Foi investindo em políticas públicas na área de saneamento e da medicina preventiva, em especial na vacinação obrigatória contra doenças como o sarampo, tétano, difteria e meningite que a partir da década de 70 o Brasil conseguiu reduzir seus índices, que chegavam naquela década a alarmantes 115 mortes por mil crianças nascidas vivas (nv) e de 82 mortes/1000 na região Sul, onde os números sempre foram menores. Foi assim que o Brasil conseguiu reduzir a morte de seus bebês à metade, chegando à década de 90 em 48 mortes/1000, e na região Sul em 27,4/1000.
Mas foi a partir da década de 80 que a queda nos números foi mais forte. Não por acaso, coincidiu com a adoção e ampliação, pelos municípios, de programas de saúde materno-infantil, sobretudo os voltados para o pré-natal, parto e puerpério, campanhas de vacinação, programas de aleitamento materno e de reidratação oral. Isso sem falar em mudanças dos padrões reprodutivos, que levaram à redução dos níveis de fecundidade. Com isso, a taxa nacional que era de 48/1000 nascidos vivos caiu para 26,5 em 2002. No Paraná, essa queda também ocorreu, de modo que a taxa média do triênio 1999-2001 foi de 18,83/1000 nv.
Apesar disso, ainda hoje o Paraná convive com números abusivos. Dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) de 2005, mostram que quatro municípios apresentaram índices acima de 50 mortes/1000nv em 2005: Alto Piquiri (42 km a sudoeste de Umuarama), Cafezal do Sul (29 km a oeste de Umuarama), Itaúna do Sul (84 km a noroeste de Paranavaí) e Barra do Jacaré (47 km a oeste de Jacarezinho), esse último com o maior coeficiente, de 90 mortes/1000nv. Outros cinco municípios tiveram coeficiente acima de 40 mortes/1000.
A médica Rossana Vianna, da divisão de Informação e Análise da Situação da Sesa, explica que é temerário analisar o índice de municípios com menos de 80 mil habitantes. Se morrer uma ou duas crianças o coeficiente já fica enorme, diz. É o caso das cidades acima. Em Barra do Jacaré, por exemplo, em 2005 houve 22 nascimentos com duas mortes e em Alto Piquiri, 128 nascimentos com sete mortes.
Por outro lado, essa mesma lógica vale para os municípios com bom desempenho. Dos 399 municípios do Estado, só 54% (217) tiveram índices abaixo de 15/1000 e, portanto, mais próximo da recomendação da Organização Mundial de Saúde (ONU), que prevê como aceitável o índice de 10 mortes por mil crianças nascidas vivas.
Na Região Metropolitana de Curitiba, não há casos de índices extremos. Em média o coeficiente de mortalidade de 2005 nos 29 municípios que compõem a região ficou em 13,1/1000nv, ou seja, perto dos níveis esperados pela ONU. Dos 29 municípios, Adrianópolis, Bocaiúva do Sul e Quitandinha tiveram mortalidade infantil zero, ou seja, não registraram morte de crianças abaixo de um ano em 2005.
Mas ainda há índices altos. O maior coeficiente coube a Agudos do Sul (34,04 mortes/1000). Em segundo lugar vem Tijucas do Sul (25,53), seguido de Tunas do Paraná (24,39), Campina Grande do Sul (23,06) e Mandirituba (21,33). Todos esses, no entanto, têm população abaixo de 80 mil, correndo o risco, segundo a médica Rossana, de terem uma avaliação errônea, se julgarmos o índice de apenas um ano de forma isolada.
Por outro lado, analisando a série histórica dos últimos quatro anos disponíveis, entre 2002 e 2005, apenas dos nove municípios da região com mais de 80 mil habitantes, só São José dos Pinhais, com 8,5 mortes/1000 em 2005 conseguiu baixar as mortes para o patamar aceitável pela ONU. Curitiba e Piraquara, que já dispõem de dados de 2006 estão com 10,3 e 10,1 respectivamente, ou seja, bem próximos de alcançar a meta da ONU. Outro município que obteve redução nesses quatro anos foi Fazenda Rio Grande, que de 22,92/1000 em 2002 reduziu para 13,02/1000 em 2005.
Colombo, por sua vez, apresentou o maior índice em 2005, com 18,88/1000. Campo Largo e Almirante Tamandaré têm números que oscilam um pouco, mas mantêm-se com uma média em torno de 17/1000. Dois municípios viram seus números aumentar: Araucária que já teve 14,31 mortes/1000 em 2002 passou para 16,24 em 2005 e Pinhais, que teve 12,85/1000 em 2004 aumentou para 15,2 em 2005.


