Dono de uma das mais tradicionais livrarias de Curitiba e do País, o curitibano Aramis Chain, de 65 anos, mantém até hoje os 450 m2 da Livraria do Chain dedicados exclusivamente aos livros, contrariando a tendência das grandes redes de vender, no mesmo espaço das obras literárias, CDs, DVDs, revistas e outros produtos. Com paredes forradas de exemplares de cima a baixo, a Livraria, que nasceu em 1967, conta atualmente com um acervo de quase 100 mil títulos.

Formado em História pela Universidade Federal do Paraná, Chain começou a vida de livreiro vendendo coleções e enciclopédias em 1962, tornou-se também editor (publicou 54 títulos) e hoje lamenta a escassa atenção dispensada aos livros.


FOLHA DE LONDRINA - A sua relação com os livros começou quando?
Aramis Chain - Ela começa com a própria Universidade. Eu terminei o curso e pretendia montar uma indústria, não consegui o dinheiro suficiente emprestado. Decepcionado, eu não tinha outra alternativa a não ser continuar trabalhando como fiz desde os 8 anos de idade com o meu pai. Aí surgiu um concurso, eu me saí muito bem e fui para o Norte do Paraná dar aula. Mas montei uma empresa para vender algumas coleções. Nessa época, a Universidade Federal estava começando a fazer mestrados e não tinham livros especializados. Fui convidado pelo Departamento de História para importar livros. Comecei com a estante de História, Geografia, depois fui para a Economia, Filosofia. Não gostava de trabalhar com a área de Direito. Tinha pavor. Até hoje tenho pavor do Judiciário porque acredito que eles aplicam a lei, eles não fazem justiça. Foi uma das últimas áreas que eu coloquei na livraria.


FOLHA - Como era o mercado livreiro em Curitiba nessa época?
Chain - Tinha muitas livrarias. Curitiba tinha aproximadamente, na década de 60, umas 15 livrarias. Hoje, acredito que a única livraria que tem assim de chão é a nossa. As demais fecharam, quebraram, desapareceram com a morte de seus proprietários. Você acredita que uma livraria e uma cafeteria no mesmo local dão certo? É uma mistura que nem farmácia e comida de cachorro. A livraria não se mistura nem com folha de papel, nem com caderno, nem com caneta, aí é uma papelaria. E essa história de colocar uma livraria com um café, não queira saber o número de livros sujos com o café, com mãos gordurosas, a irresponsabilidade.


FOLHA - Por que hoje sobraram poucas livrarias daquela época?
Chain - Porque os governos estabelecidos não dão a devida atenção e o povo do Brasil é muito preguiçoso para a leitura. Primeiramente ele diz que o livro é caro. É a maior mentira das pessoas dizerem que o livro é caro. Se você for a um restaurante você vai encontrar arroz, feijão, um bife e uma salada até por R$ 3,80. Agora se você quiser comer um carneiro, um strogonoff você paga 20, 30 reais. O livro é a mesma coisa. Os livros básicos de literatura você encontra a R$ 3. Daí a pessoa diz ''eu não tenho tempo''. Sabe porque hoje as pessoas não têm tempo? Porque têm que cuidar do seu cachorro. Não falam com o filho, a mulher não fala com o marido, mas todos falam com o cachorro. Nós estamos vivendo a linguagem do cachorro. E é essa classe média que devia estar atenta ao setor educacional. Não se tinha das décadas de 1960, 1970 e até 1980 tantas passeatas de cachorro.


FOLHA - Hoje se dá menos valor para o livro do que se dava antes?
Chain - Sábado, por exemplo, nessas décadas, o pedreiro, o carpinteiro, o funileiro, mesmo o comerciante, terminavam suas atividades sábado - trabalhava-se sábado até o meio-dia e era normal, não precisava de muita justiça do trabalho e de advogado -, as pessoas trabalhavam e aí iam ao seu barzinho tomar um café ou então iam tomar a sua cerveja. A cerveja, uma vez por semana. Hoje o jovem, o profissional, o vagabundo, o desempregado estão todo dia dentro de um bar degustando cerveja com salaminho. Todos os dias. E não precisa ser só de noite, é de manhã, de tarde e de noite. Visite as universidades, os colégios, até de ensino fundamental. Isso chama-se um povo que não tem vergonha na cara. Não se pode fazer uma nação com um povo desse tipo. Por isso que Monteiro Lobato e Lima Barreto, que eram grandes patriotas, foram despedidos das escolas e das bibliotecas. Por falar em biblioteca, veja se um arquiteto se preocupa em montar na sua casa o local para a biblioteca. Ninguém pede um local para a biblioteca. Todo mundo está preocupado em montar a sala de quê? A sala da tevê e a sala da informática. Até isso mudou dentro da casa. Este povo fala todo em educação e no fim de ano o que você dá? Dá livro? Toda a população dá panetone e vinho. O nosso povo culturalmente escolhe produtos que vão para o esgoto. Nada do que vai para cima. Quando você dá um livro para a pessoa, ela já não é mais a mesma pessoa. Você não é mais a mesma.


FOLHA - Qual foi o segredo para manter a livraria funcionando?
Chain - Todas as pessoas querem saber exatamente isso. Eu, quando montei a empresa, antes já tinha o segredo. Para você ter uma empresa o único segredo é: abra e feche. Ou seja, seja o primeiro a chegar e o último a sair.


FOLHA - O senhor considera que as pessoas estão pouco críticas?
Chain - Extremamente não críticas. Entendem muito de futebol. Sabe por quê? As pessoas são craques no futebol porque não t^m responsabilidade em você discutir futebol, em discutir cachorro, comida de cachorro, paladar de cerveja. Agora discutir com seriedade ciência no Brasil, matemática. Se não tiver a maquininha esse funcionário de 20, 30 anos de idade não consegue fazer uma conta de somar mentalmente. Quando nós, que não tínhamos todo esse sistema eletrônico, conhecíamos a tabuada. E as reuniões então (suspira). As reuniões são um desgaste. Vá numa festa. Você não pode aguentar um casamento ou um aniversário. A música é tão débil mental para débeis mentais que você não consegue conversar.


FOLHA - Como o senhor avalia o mercado editorial em Curitiba?
Chain - O mercado editorial no Brasil hoje tem mais editoras do que livrarias. Todas elas desapareceram. Eu acho que todo mundo falar de livros é muito bom. Até em shopping se fala de livro. Hoje nesses shoppings o livro não representa a quantidade de vendas como dos outros produtos, seja CD e material escolar. Ele virou um adendo. Ele está lá dentro infeliz. Porque quem está cuidando dele é outro analfabeto que não lê, chamado de livreiro, entre aspas. Procure qualquer livro numa especialização e ele não sabe nem o que é. Ele só sabe falar de Sidney Sheldon, Paulo Coelho e auto-ajuda. Dá pra chamar isso aí de livreiro? Portanto, nós temos, de todos os produtos no mundo, mais produção e menos consumo. Mas enquanto isso, a cerveja vai bem, obrigado.


FOLHA - Para o senhor, as pessoas estão acomodadas na busca por conhecimento e por autonomia de pensamento?
Chain - Nem sei se estão pensando no Brasil. Se estivessem pensando não teríamos esse desastre no Congresso Nacional. Os pais hoje estão procurando emprego para o filho, isso é uma vergonha. O jovem hoje está tão incapacitado mentalmente que papai e mamãe, titio, titia, vovó estão procurando trabalho para ele. Ele está acomodado. Houve uma acomodação. Os jovens incharam de barriga e esvaziaram de cérebro. Será que existem 200 vocábulos que eles conhecem hoje da língua portuguesa?


FOLHA - Que mudanças o senhor observou na cidade de Curitiba nesses últimos anos? Sente falta de alguma coisa?
Chain - A cidade inchou. Eu não sinto muita falta porque saí de famílias que falavam bastante, eram muito críticos, briguentos politicamente, socialmente, filosoficamente então nem se fala. E eu montei aqui o meu bunker, a minha casa de cultura e com ela atraí o que há de melhor em Curitiba e no Paraná. São 45 anos e as pessoas que saíram daqui e formaram-se, seja na PUC, na Federal, estão espalhados levando o bom nome do Paraná para todo o Brasil. E sejam professores ou profissionais liberais, quando eles voltam aqui para ver os seus ancestrais eles vêm na livraria. E eles vêm com o pai que está com o neto do lado, que vem comprar um livrinho para o neto. Ou seja, eu estou com a terceira geração. E digo para você: quem entra aqui não sai nunca mais. Eu tenho duas características: ou me amam ou me odeiam.


FOLHA - O senhor acha que isso se deve a quê?
Chain - Exatamente à minha língua. (risos)


FOLHA - Como livreiro o senhor se considera satisfeito?
Chain - Estou realizado. E vou amanhã estar mais realizado. Porque daqui saíram muitas pessoas. Muitas pessoas que não podiam comprar livro e eu emprestava para eles no ''fio do bigode''.


FOLHA - O senhor tem planos de ampliar a livraria?
Chain - Não vou mais. Eu construi um dos melhores edifícios para livraria mas com a ressaca cultural eu não me atrevi a fazer isso. Eu não iria misturar livro com comida de cachorro, que é o que é um shopping. O livro merece um lugar muito mais digno do que ele tem hoje no Brasil. Tem 3,2 mil metros quadrados (o novo prédio construído por Chain). Você acha que este lugar estaria cheio ou estaria vazio? Só se eu tivesse lá dentro cerveja, é claro.

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