O texto que segue é sobre um usuário de crack que, à noite, vagueia com freqüência pelo centro da cidade. Gosta das ruas vazias e considera-se um andarilho. Às vezes, demora três ou quatro dias para voltar para casa e fica sem tomar banho no período. Sobre os que moram na rua diz que são personagens que vivem no limiar entre diferentes realidades e chegou a se apaixonar por um deles. São pessoas que compara a seres medievais.
  Cita filósofos com familiaridade e debate suas teorias, usando algumas delas para explicar a noite. A Rua Cruz Machado conhece desde criança. Sobre o crack, que consome há um ano, diz que traz uma sensação passageira, de uns 15 segundos. Conta que uma bucha é vendida a preço tabelado: custa
R$ 10. Para fazer um pelotaço, duas, em geral, saem por R$ 15 e três por R$ 20.
  Pelotaço é a reunião das pequenas pedrinhas de crack, fumadas em conjunto na lata para potencializar o efeito. A sensação de fumar o crack na lata, que pode ser de refrigerante, ele não considera prazerosa. Entende que é exatamente na sensação efêmera, de ter de buscar a próxima, que reside a vontade para continuar con-
sumindo.
  Começou a se preocupar quando notou que estava indo encontrar uma pessoa querida por saber que se cobrasse uma dívida teria dinheiro para comprar mais. Foi aí que se deu conta que precisava voltar a ter um emprego, antes que entrasse em uma preocupação de vender as próprias coisas ou mesmo roubar para poder comprar crack.
  Por se trajar com roupas limpas e bem cuidadas, acaba tendo tratamento diferenciado. Por outro lado, é visto como um de fora. Diz que é bem trajado apenas para esse mundo. O mundo do dia, porém, não o vê com bons olhos. O pré-conceito é forte. A diferença para ele, entre o crack e a cocaína, é que o primeiro é mais difícil de esconder o consumo, e entende que o pó está mais alastrado nas classes mais altas. Quando está sujo, na fossa, afirma ser difícil encarar os olhares de indiferença.
  Contudo, alguns de seus amigos, que como ele são de classe média ou classe média-alta, também estão no crack. Enxerga a Cruz Machado como a região da prostituição oficializada, como símbolo do escape das coisas. E acredita que muitas pessoas poderosas estejam envolvidas no submundo da noite. Cita várias delas nominalmente.
  As pessoas com mais dinheiro, em geral, passam de carro ou carrão para comprar. Com a reforma da Tiradentes, a pressão policial ficou mais intensa e até chega a dizer que está funcionando, pois as pessoas estão começando a se sentir cercadas. Ali, na Tiradentes, era ‘‘o lugar’’ e agora as pessoas ficam muito expostas.
  Cansou de ver meninos-usuários com dez ou 11 anos e pensa que é fundamental evitar o contato das crianças com esse mundo. ‘‘Vivemos num sertão. E, tal como lá, aqui temos as regras básicas de sobrevivência.’’ (R.U.)

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