O cochilo que só faz bem
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2005
Simone Iwasso<br>Agência Estado 
São Paulo, SP- Houve uma época na qual o calor que vinha com o sol do meio-dia era o sinal para esticar as redes ou fechar as cortinas e tirar um cochilo. Com o tempo, a sociedade mudou, as cidades cresceram e o comércio passou a funcionar por 24 horas. Mesmo assim, os homens do século 21, dentro de seus escritórios e restaurantes, continuam sentindo uma irresistível vontade de dormir por alguns minutos depois do almoço. Vestígios do hábito ou necessidade do corpo humano? Para os médicos, a resposta está na segunda opção.
Isso porque o corpo humano passa por uma queda na temperatura em dois horários do dia: das 22 horas às 6 horas e por volta das 14 horas, por um período de cerca de uma hora. São movimentos naturais que fazem parte de um ciclo biológico, no qual estão envolvidos vários hormônios produzidos pelo corpo, que trazem com eles a vontade de dormir.
Além disso, durante a digestão, o corpo manda uma quantidade menor de sangue para o cérebro, concentrando mais sangue nos vasos responsáveis pela absorção dos nutrientes, o que também causa uma sensação de relaxamento e sonolência. E, como o estômago fica cheio, o diafragma tem mais dificuldades para se expandir, deixando a respiração mais superficial.
É um sinal da natureza de que não é uma coisa errada, é fisiológica. Mas é claro que algumas culturas respeitam mais isso do que outras, explica Maurício Bagnato, responsável pela Medicina do Sono do Hospital Sírio-Libanês e médico do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Bagnato cita um exemplo da persistência da sesta até mesmo nas grandes cidades. Quando você passa em uma obra e vê aquele pessoal cochilando na calçada depois do almoço, eles estão tendo um cochilo que restaura as funções corporais, diz.
No mundo do trabalho, esse descanso pode aumentar a produtividade à tarde, segundo estudo da Universidade de Harvard, publicado em 2003 na revista científica Nature Neuroscience. O estudo testou a percepção visual de 129 voluntários em quatro períodos do dia e notou que o desempenho ia piorando conforme o dia passava. No entanto, quem dormia por meia hora, por volta das 14 horas, apresentava o mesmo desempenho da manhã.
Sem a explicação científica, o hábito fazia parte da sociedade brasileira até meados do século passado, um costume registrado pelo etnógrafo Luis da Câmara Cascudo em seus escritos sobre a rede e a cultura popular. Moradores de áreas rurais, cidades pequenas e até mesmo tribos indígenas, como a dos terenas, cultivavam o costume. Atualmente, por causa do sol e do calor, a sesta ainda está presente no norte e nordeste do País, diz o antropólogo Roberto DaMatta.
Nas grandes cidades, algumas empresas e restaurantes tentam oferecer a sesta, mesmo que de uma maneira diferente, para quem consegue um tempo no trabalho. Na minha casa sempre tivemos esse hábito. Hoje tenho clientes que pedem para eu acordá-los, diz Salete Ebone, do restaurante Bello-Bello, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.
Você acorda com mais ânimo. Sair do agito dá uma melhora à tarde. E nós nos proibimos de falar de trabalho nesse momento, diz o arquiteto Celso Cabana Prado. Deitar, se espreguiçar, tirar um cochilo é muito bom. Quando não consigo vir aqui e fazer esse descanso, sinto falta, conta Raquel Lima Tuma, colega de trabalho de Prado.
No entanto, para o sono após o almoço ser reparador é preciso seguir algumas regras. A primeira delas é não exagerar. Para quem consegue e tem tempo hoje em dia, 30 a 40 minutos de sono são suficientes. Mais do que isso pode interferir no sono à noite, afirma Bagnato.
Quem tem problemas de digestão ou refluxo deve passar longe da cama. Quem tem problemas de digestão não pode dormir, o ideal é caminhar por 15 minutos, senão a saúde fica mais prejudicada. Não é nem um pouco recomendável, explica Flávio Steiwurz, diretor do departamento de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina.
ENTENDA A SESTA
* Ciclo biológico: O corpo humano apresenta uma queda de temperatura em dois momentos do dia. Essa queda, que está ligada ao sono, ocorre a partir das 22 horas e por volta das 14 horas. À noite, ela dura por várias horas. Durante o dia, ocorre em um período curto, de aproximadamente uma hora. Nesse momento, há também uma variação na produção de hormônios, que causam sensação de relaxamento.
* Alimentação: A queda na temperatura coincide com o horário de almoço. Aí o processo de digestão também ajuda a provocar a sensação de sono. Para digerir os alimentos, o corpo diminui o fluxo sangüíneo para o cérebro e dilata os vasos do estômago responsáveis pela absorção dos nutrientes. Com o estômago dilatado, há menos espaço para o diafragma se movimentar, o que dificulta a expansão dos pulmões e deixa a respiração mais superficial. Com a diminuição da respiração, a freqüência cardíaca aumenta e está formado o quadro que propicia a sensação de lassidão e sono após as refeições.
* Tempo: Para quem puder, de 30 a 40 minutos de sono são suficientes. Mais do que isso interfere no sono à noite. (A.E.)


