Um carro novo, desses da moda, último lançamento, para no acostamento da BR-376, que liga Curitiba ao Litoral de Santa Catarina. O vidro abaixa e uma mulher pergunta o preço do pinhão. Com os dedos cheio de anéis, ela estica o braço para pegar o saco - daqueles vermelinhos, de fio trançado - que o garoto entrega. Ele tem as mãos calejadas e sujas de embalar pinhão. Pega o dinheiro e guarda rapidamente. Aos 13 anos, E.N.M. ajuda a cuidar, nos finais de semana, da banca de pinhão da família. Desde os nove anos, o menino desempenha a brincadeira séria. Trabalha como um homem adulto; cuida do dinheiro, faz contas, quebra as pinhas, embala as sementes, dá nó no saco, pendura, cuida da panela que borbulha cozinhando pinhões. Entre uma das atividades e um carro que estaciona, ele brinca com uma bola velha, murcha.
E. ainda é uma criança, mas já entende todo o ciclo do pinhão no Paraná, que movimenta a vida de muitas pessoas entre os meses de abril e junho. É no período que a retirada da pinha é permitida pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Nesse hiato de três meses, a vida de muita gente se transforma. A pequena semente marrom (de formato cônico, comida apenas cozida e com um pouco de sal ou servindo de ingredientes para pratos mais elaborados), é vista por muitos como o ouro da árvore símbolo do Paraná.
O consumidor que para nas rodovias para comprar pinhão é apenas a ponta final desse ciclo. A maioria das pessoas que consomem a semente não imagina o processo que faz o pinhão chegar à panela. "Quando o dia é bom, a gente vende até 150 quilos", garante o pequeno E., diante do abismo do repórter. Ele sabe o que diz. Descende de uma família que há muito vive da extração de pinhão das matas do Paraná.
O pai do garoto, Joel Gonçalves da Maia, 30 anos, bate no peito quando garante que foi ele, aos 12 anos, quem teve a ideia inicial de vender pinhão na beira da rodovia. Era um dia de chuva quando pegou um saco e arriscou a sorte. O dia nem nascera, recorda Joel, e ele já estava na beira da estrada. Seu instinto estava certo: vendeu tudo naquele dia. Foi assim nos dias e anos seguintes. Quando tinha 18 anos, o negócio havia ganhado outras proporções; Joel vendia muito pinhão e era dono de vários pontos de comercialização - tanto na BR-376 quando na 277. "Nessa época, eu vendia muito; em torno de R$ 1 mil por dia de pinhão. Não tinha outros vendedores, era só eu", lembra Joel.
Quando indagado sobre a história, ele diz que poderia ter se transformado no rei do pinhão no Paraná, caso o título existisse. No entanto, a inexperiência não permitiu que ele estruturasse melhor o negócio. "Eu era muito novo", lamenta-se. Além disso, as margens das rodovias acabaram tomadas por outros vendedores nos anos seguintes. Segundo Joel, hoje existem mais de 80 pontos na BR-376. Desses, quatro pertencem aos Maias. Nove pessoas trabalham com Joel; uns vendendo na beira da estrada, outros na colheita.
Um desses funcionários é Lieder Luiz Araújo Schineider, 21 anos. Ele conta que chega à beira da rodovia às 7 horas e fica ali, no trabalho de certa forma monótono, até às 6h30 da tarde. Nos melhores dias, ganha R$ 35. "Quando está frio é melhor", revela. Um saco com dois quilos custa R$ 5; uma lata do pinhão já cozido, R$ 3. "Se tivesse pinhão o ano inteiro, eu ia trabalhar com isso só", diz Lieder, que nos outros meses ajuda Joel em sua empresa de poda de árvores.
Além de vender, Lieder também auxilia na colheita. Em pouco tempo, escala até o topo de uma araucária, cheio de desenvoltura e quase sem receio. Lá de cima, chacoalha a árvore até que uma pinha despenque. No chão ela se parte e Joel mostra como a semente se encaixa dentro do "fruto".
Este é uns dos processos para colher o pinhão. Os "catadores profissionais", que vivem de recolher a semente nas matas do Paraná, têm um esquema definido de extração. É preciso enfrentar sem medo o frio da manhã para encher um saco de pinhão. O trabalho começa às 6 horas, quando os catadores se embrenham na mata para recolher as sementes que estão no chão. "É para pegar o que cai durante a noite", explica Joel. A "colheita" dura até por volta das 10 horas da manhã, quando todo mundo vai almoçar.
Depois da sesta, já no período da tarde, o trabalho recomeça. Dessa vez, é preciso escalar os altos pinheiros para fazer a retirada da pinha. A extração é feita somente por pessoas mais experientes, que conseguem escalar a árvore. Lá de cima, ou chacoalham a árvore para que as pinhas caiam ou cutucam os "frutos" com uma vara. Com as pinhas no chão, os catadores retiram os pinhões e passam a encher os sacos, que depois serão comercializados.
Vários setores da sociedade lucram, desde os pequenos catadores que recolhem o pinhão no meio da mata até grandes redes de supermercado, que vendem o produto em suas gôndolas. "É uma época que circula muito dinheiro - e dinheiro vivo - entre os catadores. Os bons catadores tiram até R$ 150 por dia. É nessa época que conseguem comprar um carro velho, uma geladeira, um terreninho...", enumera Joel. A vida dele próprio, como de muitos que têm a extração de pinhão como parte da renda, é assim. "Minha vida gira em torno do meses de maio e junho. Durante o resto do ano, jogo todas as minhas dívidas e negócios para esta época", confidencia.
De fato, o comércio de pinhão ainda movimenta muito dinheiro no Estado. Em 2008, o Centro de Abastecimento do Paraná (Ceasa-PR), comercializou R$ 1,9 milhão em pinhão. Somadas, são pouco mais de 937 toneladas consumidas. Até o dia 20 de maio deste ano, já foram comercializadas 346 toneladas de pinhão, que resulta em quase R$ 700 mil negociadas. No ano passado, a semente chegou a custar R$ 2,25 o quilo. Este ano, o valor médio chega a R$ 1,98. O Ceasa reúne toda a produção de pinhão vinda do próprio Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Minhas Gerais. Depois toda essa produção é vendida para o resto do Estado.



Araucária, pinha, pinhão

- O pinhão é uma semente comestível, produzido pelo "fruto" pinha. A pinha é considerada um fruto sob o aspecto agronômico, não botânico.
- Uma araucária vive, em média, 200 anos. Na mata, leva 20 anos para produzir a pinha. Com o método desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), esse tempo cai para 12 anos;
- O pinhão é composto por 50% de amido e 7% de proteína. Segundo o professor Flávio Zanette, da UFPR, isso torna a semente extremamente nutritiva e saudável;
- A produção do pinhão é orgânica; não exige o uso de agrotóxicos;
- Segundo estudos da UFPR, o pinhão tostado (sapecado) é mais bem digerido pelo organismo que cozido na água;
- A araucária vai além do pinhão. Pode dar lucro com as grimpas secas que caem das árvores. As grimpas podem ser transformadas em aglomerado (usado na fabricação de móveis), biocombustível e compostos orgânicos;
- A araucária é uma grande "sequestradora" de carbono, função que ajuda na purificação do ar;
- A UFPR ajuda no reflorestamento do Paraná com araucárias. O projeto da universidade já distribuiu mais de 20 mil mudas para 800 propriedades no Estado.

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