O canto do Uirapuru
Uirapuru é um pássaro difícil de se encontrar atualmente, sendo mais comum na região norte do Brasil. Ele assemelha-se ao canário nas formas de seu corpo, mas sua coloração é bem diferente. Muitos de nós nunca vimos um uirapuru, tampouco ouvimos o seu canto. Mas um canto bastante conhecido dos umuaramenses é o Bosque Uirapuru, lugar de boas caminhadas físicas e espirituais no que se refere ao encanto das conversas que temos enquanto andamos, aos cumprimentos às pessoas que ali encontramos em diferentes momentos e ao contato saudável que podemos ter com as árvores, as folhas da relva e os filhotes de cães e gatos que ali são deixados por quem deles não pode ou não quer cuidar.
O cuidado ou descuido com este pássaro pouco conhecido pode promover e socializar sua beleza ou levá-lo ao esquecimento e, por fim, à extinção. Deixando de lado o hermetismo de metáforas exageradas, falemos um pouco sobre o bosque e suas sutilezas, mas pensemos nele como se fosse uma pequena ave que ainda precisamos conhecer melhor em seu canto, em suas formas e cores. Um pássaro do qual seria preciso cuidar para que voasse mais alto e mais longe. Nosso velho bosque nem sempre tem recebido de nós toda a atenção que necessita e merece, pois, como nos ensinam os mais sérios ecologistas: a atenção e o cuidado com a terra, flora e fauna é algo que se converte, necessariamente, em nossa própria qualidade de vida. Trata-se de um lugar lindo, mas não ficaria melhor se alguns pequenos cuidados passassem a ser tomados?
Não seria interessante se, por exemplo, de cem em cem metros, ou noutra metragem mais adequada, encontrássemos latas de lixo bem feitas como as que existem em certos pontos da avenida Paraná? Não seria uma forma de incentivar os caminhantes e demais visitantes a que não jogassem lixo sobre as plantas? Ou será que o aspecto de entulho dos diferentes galhos e troncos caídos acaba dando uma impressão de que ali é mesmo um lugar de se jogar lixo? Não poderíamos fazer alguma coisa também nesse sentido? Uma idéia sugerida por um inteligente mestre de obras aposentado, assíduo frequentador do bosque, é a de retirar galhos e troncos caídos e aproveitá-los como lenha numa concepção bastante avançada de aproveitamento do potencial orgânico energético do bosque. Nesse caso, não se corta nenhuma árvore, mas aproveita-se o que a própria natureza oferece gratuitamente e, de quebra, ganha-se com o embelezamento do ambiente! Quanto à cobertura orgânica necessária à retro-alimentação das árvores, não seria preciso nos preocupar, pois as folhas caídas e a vegetação rasteira que ali já se desenvolveu são mais que suficientes para manter as colônias de micro-organismos necessárias para a fertilidade do solo.
Há ainda outras questões relevantes quanto a este tema que exigiriam um diálogo certamente transcendente aos limites deste breve texto. Existe o problema da saúde das árvores e do estudo e aplicação de tratamentos adequados para recuperá-las de suas doenças e mantê-las vivas. E outro ponto muito comentado pelos frequentadores do bosque é o dos pássaros ali aprisionados, que todos gostariam de ver libertados. Como diz a canção de um conhecido movimento popular: se o passarinho canta mais quando está preso, é no desejo de um espaço pra voar! Há ainda outros detalhes que revitalizariam a vida do nosso velho e desconhecido pássaro. Por que não caiar os meio-fios que contornam as trilhas de nossas caminhadas, isso não nos deixaria mais animados e gratificados? Não sairia caro fazê-lo. Além disso, a revitalização do espaço das churrasqueiras não poderia incentivar as pessoas a realmente utilizá-las como se fazia há alguns anos atrás?
É certo que o tempo faz com que tudo entre em decadência. É inevitável. Como diz uma canção cubana, o tempo é implacável. Mas não caberia a nós, que temos inteligência e capacidade de planejamento, organização e transformação da natureza, tomar alguma atitude para fazer do tempo nosso aliado e não nosso inimigo? Talvez não seja tão oneroso obter respostas para esta questão. Uma aliança entre população, poder público e universidade poderia criar um fertilizante poderoso para fruirmos com mais intensidade esse nosso canto do uirapuru.
Achilles Delari Junior psicólogo e professor; mestre em educação pela Unicamp.
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