Elevar o consumo de energia de fontes renováveis, como a eólica e a solar, podem ajudar o País a sair da lista dos maiores emissor de gases de efeito estufa
Elevar o consumo de energia de fontes renováveis, como a eólica e a solar, podem ajudar o País a sair da lista dos maiores emissor de gases de efeito estufa | Foto: Anderson Coelho/24-06-2016



O Brasil é o sexto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo e as principais fontes de emissão gasosa são a devastação e queima de florestas, as atividades agrícolas e o consumo de energia de fontes não renováveis, como as termelétricas. Como efeito dessa maior liberação de gases na atmosfera, vêm as mudanças climáticas, que já são uma realidade no País e são sentidas em várias capitais e outras cidades do interior, que sofrem com o aumento das temperaturas e a escassez hídrica.

Um estudo lançado neste mês pelo WWF-Brasil juntamente com os ministérios do Meio Ambiente e da Integração mostra o Índice de Vulnerabilidade aos Desastres Naturais Relacionados às Secas no Contexto das Mudanças do Clima e aponta o quanto as cidades brasileiras estão expostas ao problema das secas. "Há análises que já vêm reforçando o alto grau de vulnerabilidade que a sociedade brasileira tem e terá nos próximos anos em relação à questão da água e isso repercute em várias outras questões também relacionadas com a qualidade de vida, com a segurança pública e também com a questão econômica", avalia o coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Costa Nahur, convidado para ser um dos painelistas do 9º EncontrosFolha, que acontece nesta sexta-feira (28) e terá como tema "Como as Mudanças Climáticas Desafiam o Crescimento Econômico".

Além de analisar a questão da sensibilidade dos municípios brasileiros às mudanças climáticas, o estudo da organização não governamental ambiental avaliou também a capacidade adaptativa das cidades a essa nova realidade. "Atualmente, quando a gente olha o contexto brasileiro, é muito importante reforçar que o País tem um enorme potencial para fazer a transição para essa economia de baixo carbono", afirma Nahur.

Essa transição, explica o coordenador, passa pela implementação de medidas que reduzam as emissões de gases de efeito estufa. A produção energética brasileira é responsável pelo aumento das emissões, principalmente porque os impactos das mudanças climáticas estão recaindo sobre o setor e as hidrelétricas têm perdido capacidade de prover a energia necessária. Nesse contexto, as termelétricas, bem mais poluentes, surgem como a primeira alternativa, aumentando também o custo energético para a população brasileira, que paga uma conta de luz cada vez mais salgada. "Hoje em dia o Brasil tem um potencial gigante na questão de geração de energia solar. O setor de energia solar fotovoltaica tem crescido muito nos últimos anos e tem se mostrado um setor econômico com um enorme potencial de expansão", ressalta Nahur, lembrando que sistemas de captação solar estão cada vez mais acessíveis e podem ser implantados para reduzir o consumo energético tanto em residências quanto em empresas.

RECURSOS HÍDRICOS
A melhor gestão dos recursos hídricos, especialmente pelas grandes cidades, passa por novas possibilidades de captação de água. E associadas a esse manejo mais eficiente da água estão ainda as mudanças nas formas de produção e distribuição de alimentos de modo a beneficiar economicamente os municípios, como por exemplo a redução dos gastos com energia e transporte. Todas essas, aponta Nahur, seriam medidas que teriam como efeito a redução no impacto ambiental. "A questão do aumento do uso do transporte público e o uso de biocombustíveis, como o etanol, ajudam a sociedade a reduzir as emissões. São formas de apoiar a economia nacional e conseguir o desenvolvimento de baixo carbono", diz o coordenador.

Para reduzir a emissão de carbono do setor de florestas, uma medida urgente seria reduzir o ritmo do desmatamento, que voltou a crescer estimulado pelos modos de consumo da sociedade. "O desmatamento na Amazônia está relacionado com uma cadeia de retirada de madeira junto com a questão agropecuária, do consumo de carne e também com a questão da estocagem da soja, então tem uma cadeia grande", destaca Nahur. "É sempre importante reforçar que o modo de consumo de todas as pessoas está totalmente conectado com o desmatamento na Amazônia. Essa é uma questão que tem de ser trabalhada com o governo, mas também com as pessoas, repensando seus modos de consumo."

REFLEXOS NA ECONOMIA
Se o Brasil seguir o caminho da descarbonização da economia e se o cenário atual permanecer estável, frisa Nahur, até 2030 o PIB (Produto Interno Bruto) do País poderia aumentar, elevando também a geração de empregos, a inserção econômica nacional e o poder de compra dos brasileiros como um todo.

O coordenador reconhece que o País avançou na questão energética e que a nossa matriz é "muito renovável" quando comparada com as de outras nações. "Esse foi um grande avanço que o Brasil teve no século passado, de ter essa matriz renovável, mas a gente ainda tem muito que avançar nas outras oportunidades que estão aparecendo por aí", diz Nahur. "Mas o Brasil não está preparado para essa mudança climática que vai interferir no nosso consumo de energia. O Brasil depende quase 60% dessa matriz de energia elétrica e ela é alimentada por hidrelétricas."

Capacidade de geração de hidrelétricas pode cair 30%

Coordenador do Programa Mudanças Climáticas do WWF-BRasil, André Costa Nahur ressalta que estudos realizados pela organização não governamental ambiental e por outras entidades mostram que nos cenários mais otimistas de aumento de temperatura e redução de disponibilidade hídrica no País, as condições ambientais poderão causar uma redução de até 30% na geração do parque hidrelétrico brasileiro. "Se a gente não se preparar para os próximos anos, se não nos preocuparmos com outras fontes, no futuro a tendência seria a entrada cada vez maior das termelétricas, que tem acontecido nos últimos anos. Isso incorre em mais emissões e em custo maior para o consumidor."
A solução para criar uma dependência menor da energia gerada pelas usinas termelétricas é a diversificação, aproveitando o enorme potencial energético natural e renovável brasileiro. Apenas na questão solar, frisa Nahur, se 0,03% do território nacional fosse coberto por painéis solares, essa fonte de energia seria capaz de atender toda a demanda de energia elétrica do País. "É claro que a gente não pode depender 100% de energia solar, a não ser que tenha armazenamento, mas é só para mostrar o grande potencial que a gente tem no País dessa fonte. A (energia) eólica também tem um potencial gigante que a gente pode explorar e virar referência no mundo todo de uma matriz 100% renovável e adaptada às mudanças climáticas", destaca.

Estudo aponta secas mais intensas em todo o País

O estudo Índice de Vulnerabilidade aos Desastres Naturais Relacionados às Secas no Contexto das Mudanças do Clima, produzido pela WWF-Brasil em parceria com os ministério do Meio Ambiente e da Integração, analisa a vulnerabilidade a secas e estiagens para municípios em todo o território nacional, com projeções para os períodos de 2011 a 2014; 2041 a 2070 e 2071 a 2099. O estudo aponta a tendência de aumento da ocorrência de secas em todo o território brasileiro, especialmente na região Centro-Oeste, onde os períodos de estiagem deverão ser mais longos e mais frequentes nas próximas décadas.

A porção norte do Ceará, Piauí, Maranhão e Pará também surge como uma das mais vulneráveis às mudanças climáticas no que se refere às secas, com maior risco para o Maranhão.
Cenário mais ameno deve ter o Sudeste, com exceção do norte de Minas Gerais, mas ainda assim a previsão para a região mais populosa do País é de períodos mais secos no futuro. E na região Sul, os efeitos da mudança climática tendem a intensificar as estiagens em parte do Rio Grande do Sul e do Paraná.

"Essas mudanças já estão acontecendo. Se você pegar o histórico da seca do Nordeste em 2014, 2015 e 2016, foram as secas mais fortes da história do Nordeste e os últimos três anos também foram os anos com o pico do aumento de temperatura média do mundo comparado com os históricos que os cientistas têm", ressalta o coordenador do Programa Mudanças Climáticas do WWF-Brasil, André Costa Nahur.

Segundo Nahur, pesquisas mostram que mais de 80% da população brasileira já sentem os efeitos das mudanças climáticas e já sabem que eles são uma realidade. A análise de como os hábitos da população contribuem para agravar o problema passam por uma avaliação tridimensional na qual são considerados os cenários climáticos futuros, o índice de exposição às mudanças climáticas e os impactos que serão gerados por essas mudanças. "Esses dados são cruzados com a questão do quanto as populações são sensíveis às mudanças e com sua capacidade adaptativa aos extremos de seca, que está relacionada a fatores econômicos", explica Nahur.

"Tudo isso está relacionado com a mortalidade infantil, porcentagem de pessoas de baixa renda e densidade demográfica. Cidades com uma grande concentração populacional são mais sensíveis e a questão dos recursos hídricos também existe, assim como o uso do solo."

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