O caminho das pedras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de abril de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
A exemplo de outros centros urbanos como São Paulo (porém guardadas as devidas proporções), Curitiba também tem a sua ''crackolândia'', localizada em um trecho sem trânsito de carros na Rua Saldanha Marinho, no centro da cidade. Em plena luz do dia encontramos jovens fumando as pedras da desgraça e outros traficando na região. Este público prejudica o comércio local e põe em risco a segurança dos transeuntes e dos alunos de uma faculdade próxima, que são constantemente abordados por estes indivíduos.
O dono de uma lanchonete perto da faculdade classifica a movimentação de marginais como um ''inferno'' para sua atividade. Segundo ele, em um ano seu movimento diminuiu 30% em função da presença da droga no local. Outro comerciante da região, que preferiu não se identificar, teve que reduzir sua jornada de trabalho para não ter sua segurança ameaçada. ''Perdi todo o movimento da tarde, antes fechava às 21 horas, agora tenho que fechar às 18'', conta. Seu estabelecimento fica ao lado de um local onde os viciados costumam utilizar a droga. ''Eles avançam nos fregueses e forçam a gente a dar coisas'', indigna-se.
A ''crackolândia'' integra uma área bastante degradada do centro da cidade, próxima à Catedral de Curitiba. De acordo com o Relatório de Ocorrências do 12º Batalhão da Polícia Militar (PM), que abrange esta região, entre fevereiro e início de abril deste ano foram registradas 3.568 ocorrências, das quais 93 foram na Praça Tiradentes. Mais de 160 pedras de crack foram apreendidas neste período e 29 pessoas foram presas, mas a atuação dos marginais não diminuiu.
Segundo o Coronel Jorge Costa Filho, coordenador estadual do narcodenúncia, a região foi ''loteada'' por vários traficantes, que transitam com pouca quantidade da droga para não caracterizar o tráfico de entorpecentes, e sim o uso. ''A nova lei diz que o usuário é vítima, então ele assina um termo circunstanciado e vai embora'', diz Costa.
Para enfrentar este problema, a polícia atua em duas frentes. A primeira, segundo Costa, é paliativa e consiste no policiamento da região, que diminuiria em parte a atuação dos marginais. A segunda medida é o monitoramento das ativiades criminosas através do serviço de inteligência da Polícia Civil. A saída para este impasse, segundo Costa, seria autuar várias vezes o mesmo criminoso, para, no futuro, convencer o Ministério Público (MP) de que trata-se de um traficante e não de um usuário comum de drogas.
Para tentar conter a ação destes indivíduos, a faculdade localizada na área disponibiliza bolsas de estudo para PMs - a presença destes profissionais inibiria a ação de criminosos. Segundo Aramis Kuss, coordenador de segurança da instituição, os alunos são abordados na entrada e na saída das aulas. Ele conta que recentemente os estudantes presenciaram uma briga entre traficantes onde um saiu esfaqueado. ''Ali sempre existiu estes problemas, a gente tenta contornar mas é difícil'', afirma. Assim também pensa o coronel Costa ''É um problema cíclico, de tempos em tempos temos que atuar nesta região'', afirma.
O projeto Marco Zero, da Prefeitura de Curitiba, prevê a instalação de 80 câmeras de segurança em todo anel central da cidade, que inclui a região da Saldanha Marinho. Outro projeto que atua neste sentido é o Centro Vivo, capitaneado pela Associação Comercial do Paraná. De acordo com a assessoria da entidade, o problema número 1 dos comerciantes locais é a falta de segurança.


