O BRASIL QUE FALA ÁRABE - Um Eldorado para refugiados de guerra
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de novembro de 2009
Marcela Rocha Mendes<br> Equipe da Folha 
Dois Vizinhos - Na pequena cidade de 35 mil habitantes no sudoeste do Paraná, relatos de iraquianos refugidos da guerra se misturam com histórias da vida pacata dos habitantes. Relatos como o de Farhad Kambar, 45 anos. No Iraque, era reservista da guarda republicana no setor de comunicação do governo Saddam Hussein. Ele viu, ao longo dos anos, seu país ganhar muito dinheiro com o petróleo e gastar na construção de uma máquina militar de espionagem e um grande sistema de proteção. Aos poucos, o Estado deixou de dar benefícios à população para aparelhar o exército. Quando viu esse cenário sendo construído, ele decidiu que não viveria mais ali.
Assim como outros refugiados vindos de países muçulmanos, Kambar encontrou em Dois Vizinhos (46 km ao norte de Francisco Beltrão) a possibilidade de recomeçar do zero. Por causa da oferta de empregos em uma fábrica que dedicou sua produção para países árabes, a cidade viu chegar, há 20 anos, imigrantes e refugiados seguidores do islamismo. Hoje, eles formam uma comunidade com algumas tradições e costumes próprios. Mas nem a tranquilidade interiorana apagou as cicatrizes do passado de quem viveu uma guerra.
Kambar viu os jovens de seu país serem chamados para o serviço militar, enquanto a mão de obra para sustentar o Iraque precisava ser trazida de outros estados árabes mais pobres. Segundo ele, eram cinco sistemas de espionagem do regime e um espionava o outro. Se alguém se colocasse contra o regime, aos poucos, via desaparecer mãe, pai, primos, vizinhos. Até a pessoa mudar de ideia.
Esse processo começou na década de 1970. E não demorou para Kambar decidir que era hora de deixar o Iraque. Foram várias tentativas de fuga, desde o início dos anos 1980. Com sucessivos fracassos, sempre era chamado novamente à ativa. Tudo em segredo, já que a Organização das Nações Unidas (ONU) tinha mandado o país diminuir sua força militar. Ele ainda atuou na Guerra do Golfo.
Em uma nova convocação, em 1999, percebeu mais uma guerra próxima. Naquele momento, resolveu deixar tudo para trás: casa, carro, conta em banco, pais e irmãs. Precisaria recomeçar do zero. Sabia que, se preparasse sua saída, levantaria suspeita e poderia nunca conseguir. No ano 2000, cruzou a fronteira para a Jordânia, onde ficou três semanas até embarcar com destino ao Brasil. Morou em São Paulo, Balneário Camboriú (SC), Videira (SC) antes de fincar raízes em Dois Vizinhos.
O programa de reassentamento de refugiados da ONU deu a Kambar a chance de começar uma nova vida em outro país. O sudoeste paranaense ofereceu tudo que ele precisava para se reencontrar no mundo: um emprego, uma comunidade árabe, uma esposa, a aceitação e a tranquilidade de estar a milhares de quilômetros de uma guerra.


