Uma paisagem lunar, com gelo incrustado por todos os lados; uma água esverdeada de tonalidade difícil de definir, rara aos olhares tropicais. Uns arriscam verde-garrafa outros ficam com verde-jade, enquanto a maioria fica somente perplexa. Frio, muito frio. Rajadas de vento acima de 150 quilômetros por hora transformam suportáveis dois graus negativos numa dolorosa sensação térmica de menos 27 graus Celsius. A natureza é implacável, forte e grandiosa e para aqueles que ultrajam sobrepor seu tempo ela é mortal. Esta é a Antártica, o continente guardião do tempo.
Algures do interior paranaense, seu Pedro, agricultor sexagenário, deixa o sorriso farto transpor a timidez do interiorano. É a melhor safra dos últimos anos. O clima ajudou, chuvas e temperatura na medida certa. Leitor assíduo da FOLHA, não compreende por que o jornal foi tão longe. O que seu Pedro não sabe é que os 30 milhões de quilômetros cúbicos de gelo acumulados na Antártica são tão importantes quanto o manto verde da Amazônia na manutenção das condições climáticas locais. O Paraná que o diga, está numa área de transição entre os sistemas frios que vêm do sul, as frentes frias que vêm da Antártica e os sistemas quentes que vêm a Amazônia.
Em 1975, seu Pedro viu pela primeira vez lágrimas nos olhos de seu pai, um italiano de 74 anos, tão rústico quanto alto e forte. A geada que queimara os pés de café havia transformado em cinzas os bens da família. A Antártica mostrava sua fúria, as frentes frias ali gestadas varreram o norte-paranaense. ''A importância da Antártica é a formação das massas de ar polar, que no inverno provocam quedas abruptas das temperaturas. Principalmente nas regiões do centro-sul do Estado. As massas de ar no inverno são bem mais fortes e em função disso é que provocam geadas. É importante que preservem a Antártica porque a sua degradação vai implicar em alterações numa vasta região'', explica o metereologista do Simepar, Tarcizio Valentin da Costa.
Só na década de 50 a comunidade científica mundial despertou para a importância da Antártica. Um esforço de pesquisa envolvendo 67 países durante 18 meses consecutivos ficou conhecido como o Ano Geofísico Internacional. O sucesso da empreitada foi embrião para o nascimento, em 1959, do Tratado da Antártica, que entrou em vigor em junho de 1961, definindo o continente como ''uma reserva natural, dedicada à paz e à ciência''. A assinatura do tratado congelou as pretensões territoriais de países como Chile, Argentina e Austrália, entre outros.
Demorou, mas em 1982 o Brasil acordou para a necessidade de possuir uma estação de pesquisa no continente, e logo em 1983 o País foi admitido como Membro Consultivo do Tratado da Antártica. Hoje o Brasil possui a Estação Antártica Comandante Ferraz, quatro refúgios permanentes e conta ainda com o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, que possui dois helicópteros embarcados. Em março de 2009 está prevista a entrada em operação do segundo navio de apoio, o Almirante Maximiliano, comprado este ano, depois que o presidente Luis Inácio Lula da Silva visitou a estação brasileira. No orçamento de 2008 foram reservados R$ 16 milhões ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

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