Nascida no Juvevê e moradora do bairro até hoje, Liliane Carraro, de 50 anos, resume em uma frase o que se passou com o local nas últimas décadas. ''A primeira casa em que eu morei é um edifício hoje'', conta.
Para Liliane, por conta da especulação imobiliária, o Juvevê perdeu o aspecto de bairro tranquilo que tinha na sua infância. ''A paisagem está completamente diferente, hoje só se vê arranha-céus'', observa. Mas uma coisa não mudou, ressalta a moradora, a cordialidade entre os habitantes mais antigos permanece a mesma. ''Conheço muitas pessoas do bairro que são daquele tempo. As lojas me deixam levar as coisas para casa para eu escolher. Como faz muito tempo que eu resido aqui, todas elas me conhecem'', explica.
Proprietária de uma banca de jornal, Nika Deluque, de 38 anos, escolheu o Juvevê para morar há dois anos por causa da boa localização e infra-estrutura. ''Tenho filhos e aqui temos fácil acesso aos ônibus. Eles ficam mais independentes. Também tem muito comércio, você consegue fazer as coisas muito perto'', justifica. Nika observa que o crescimento recente não espantou o moradores mais antigos. ''A única queixa deles é quanto ao aumento da criminalidade'', ressalta.
Raquel Bachmann, de 57 anos, nascida no Juvevê, é outra que destaca a acelerada mudança da paisagem. ''O bairro mudou todo. Aqui era tudo casa antiga, virou tudo prédio. Não sou tão velha assim, é que a evolução foi rápida'', explica. ''Adoro esse bairro. Às vezes passo ali por baixo e vem à memória uma casa antiga onde hoje é um prédio. Os velhos têm que dar lugar para os novos, né'', completa.
Um dos estabelecimentos que resiste a esse avanço é o Bar Luzitano. ''Meu pai veio pra cá em 1962 e o bar foi passando, agora estamos eu e meu filho'', conta a proprietária Maria Teresa Simões Cardoso, a Terezinha. A ligação entre o bar e os fregueses é tão forte que todo ano é realizada uma festa de confraternização e as fotos do grupo estão espalhadas pelas paredes do bar.
Um desses fiéis frequentadores é o policial civil aposentado Wilson Monteiro, que completará 70 anos de idade no mês que vem. ''Pago aqui por semana e nunca ninguém foi cobrar um centavo na minha casa, é a amizade. Aqui é o único lugar que eu frequento há mais de 30 anos'', afirma Monteiro, nascido e criado no Juvevê. Segundo Terezinha, no que depender deles a tradição deve continuar por muito tempo ainda. ''De repente os prédios foram se multiplicando, ficou tudo novo, mas a gente tem esperança de que vai ficar aqui sempre'', arrisca.
Segundo dados do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), a palavra Juvevê faz parte do vocabulário dos curitibanos desde o século XVII. Ao final da Ata de Medição do Rocio (logradouro público), de 1º de maio de 1693, já se falava nas nascenças do Rio Juvevê como fronteira a nordeste da então Vila de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais. No Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná, o historiador Ermelino de Leão define Juvevê como ''corrupção da palavra Yubebã'', que em língua Tupi significa espinho chato ou rio do fruto espinhoso. Ainda, de acordo com o Ippuc, relatos de antigos moradores da região confirmam que o rio local era cercado por muitos ''juvevês'' (árvores espinhosas).

mockup