O bairro da convergência
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segunda-feira, 30 de abril de 2007
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
No caminho entre o Centro e Santa Felicidade, o bairro Mercês deve seu nome aos vendedores italianos de verdura e outros produtos coloniais que vinham de Santa Felicidade trazer suas mercadorias - ''merci'', em italiano - para serem vendidas no bairro. Com o tempo a expressão italiana foi adaptada para o português como ''mercês'', e o local ficou conhecido como ''o bairro das mercês''. Em 1929, os freis capuchinhos consolidaram o nome com a inauguração da igreja Nossa Senhora das Mercês. Ao contrário do título de muitas paróquias que reproduzem um dos vários nomes dados à Nossa Senhora em diversas partes do mundo, a Nossa Senhora das Mercês é uma criação curitibana, garante o frei capuchinho Ovídio Zanini.
Regimundo Francisco da Silva, de 76 anos, morador do bairro na década de 50, guarda na memória a cena descrita pelo frei. ''O pessoal de Santa Felicidade vinha pra cá com carrocinhas de madeira puxadas a cavalo e faziam filas. Naquele tempo Santa Felicidade tinha muito colono'', conta. Silva não mora mais nas Mercês mas costuma visitar os irmãos que ainda residem no bairro. ''É um lugar espetacular, sempre venho ver esse povo'', afirma.
Morador do bairro há 27 anos, José Ciro de Almeida, de 56 anos, observa que ao longo desse tempo a infra-estrutura do local melhorou bastante mas o que mudou mesmo foi a violência. ''Quando eu vim para cá a situação era completamente diferente. Tinha traquilidade não importava a hora'', lembra. ''Mas ainda é um lugar bom para se morar. O carro eu abandonei, só vou para o Centro a pé'', completa.
''Nascida e malcriada'' nas Mercês - como costuma dizer em tom de brincadeira o marido dela -, Cristiana Mazzarotto, de 44 anos, que diz conhecer até os sapos do bairro. ''Onde a gente vai aqui se sente em casa. As pessoas que vivem aqui e que nunca sairam daqui conservam aquela coisa de província e as lembranças de antigamente quando era tudo sem asfalto'', conta. Cristiana e o marido, Sérgio Braga Figueiredo, de 48 anos, administram hoje o Bar Botafogo, que foi do pai dela e é um dos mais antigos de Curitiba, em atividade desde 1949. ''O bairro está crescendo, muitos moradores antigos estão vendedo suas casas e cedendo espaço para a construção de sobrados'', observa Figueiredo.
Não é caso de Alice Dumsch, de 75 anos, proprietária de uma tradicional mercearia da região. ''Nasci e me criei aqui, só tenho de ficar no bairro. É daqui para o cemitério. Por que eu vou trocar se a minha vida foi aqui?'', justifica. Entre os moradores mais jovens o sentimento é o mesmo. Silvia Wy'a Poty, de 29 anos, só vê vantagens em morar nas Mercês. ''Tem tranquilidade nas ruas para caminhar, é arborizado, alto. Tem vários bancos, papelaria. Uma caminhadinha para o Centro e já está ali. Não quero falar muito bem porque senão as pessoas vão vir para cá e vai mudar. Não quero que venha mais gente para cá'', revela.
Justamente por estar no alto, o bairro é um ponto privilegiado para observar a cidade. E em 1991 foi inaugurada a Torre Panorâmica da Brasil Telecom, com 109,5 metros de altura. A torre abriga o Museu do Telefone e um mirante que permite visualizar praticamente toda Curitiba.
Outra atração do bairro é a bênção dos carros realizada pelos freis capuchinhos toda primeira sexta-feira do ano. ''Diz-se que 60% a 70% dos curitibanos que compram carros vêm aqui. O movimento é impressionante com chuva ou sem chuva. São 35 mil a 40 mil veículos e 30 frades pra benzer os carros'', afirma o frei Zanini. Ao longo do ano, a igreja das Mercês é referência em Curitiba e região para todo o tipo de bênção, aconselhamento espiritual e até psicológico, segundo o frei. ''É um pouquinho interbairros. Os padres dizem: 'Vai lá nos capuchinhos'''.


