Nas décadas de 1950 e 1960, a fronteira agrícola e a expansão urbana avançavam velozes em direção ao interior paranaense. Entrevendo que esta ‘‘marcha para o Oeste’’ apagasse os já poucos vestígios dos povoamentos espanhóis e jesuítas no Estado, o arqueólogo paranaense Oldemar Blasi se lançou à tarefa de reencontrar as reduções para assegurar a preservação.
  Hoje com 90 anos, o ex-diretor do Museu Paranaense recorda que a tarefa não foi fácil, pois dispunha só de algumas referências bibliográficas sobre o assunto. Em meados dos anos 1960, encontrou primeiro a redução de Nossa Senhora de Loreto e, em seguida, a de San Ignácio Mini. ‘‘Fizemos um levantamento das áreas, construímos uma maquete e apresentamos em um congresso na Espanha. Acabou tendo repercussão mundial’’, observa o arqueólogo.
  Blasi calcula que nas duas reduções teriam orbitado pelo menos 5 mil índios. ‘‘Os padres aproveitaram a cultura indígena, principalmente na alimentação e na fabricação de cerâmica. Por outro lado, introduziram a tecelagem e, imediatamente, a roupa. O nudismo dos índios passou a ser uma coisa pecadora. Substistuíram também a pajelança pela cruz católica. Por isso, aconteciam conflitos’’, explica.
  As reduções foram estimuladas pela Coroa Espanhola por ser uma forma de arrebanhar os índios. Mas logo o Estado espanhol sentiu-se prejudicado pela interferência das reduções no sistema de ‘‘encomiendas’’ (quando um grupo de índios ficava sob a tutela de um colono e seus descendentes pelo prazo de algumas gerações; em troca, o ‘encomendeiro’ recebia em bens ou dias de trabalho o tributo que o índio deveria ao rei espanhol). ‘‘Era uma quase escravidão. Começou a haver fugas de índios para as reduções.’’
  Tal situação teria facilitado a vida dos invasores paulistas. Além de aprisionarem os índios, eles passaram a atacar as reduções do Guairá. Ao avançarem sobre o território, expulsaram também os espanhóis. ‘‘A invasão dos bandeirantes foi um dos fatores que permitiu a expansão das fronteiras do atual Brasil’’, diz Blasi. (L.A.)

POR QUE O PARANÁ PERTENCIA À ESPANHA?

- Antes da descoberta oficial das Américas – o ‘‘Novo Mundo’’ –, duas das principais potências da época das grandes navegações, Portugal e Espanha, já discutiam a divisão destas novas terras. Em 7 de julho de 1494 elas assinaram o Tratada de Tordesilhas, que dividia o território em duas partes. Uma linha imaginária a 370 léguas de Cabo Verde foi traçada de norte a sul: Portugal ficou com a porção Leste e a Espanha com a porção Oeste.

- A linha cortava o atual Brasil de Belém (Pará) à Laguna (Santa Catarina). Quase toda a costa atlântica ficou sob domínio português. O Paraná, então chamado de Província Del Guairá, pertencia à Espanha e tinha como limites os rios Iguaçu (ao Sul), Paraná (à Oeste), Paranapanema (ao Norte) e Tibagi (à Leste).

- O Guairá passou para o domínio português por força das invasões dos bandeirantes paulistas. Somente em 1853 é que a então 5ªComarca de São Paulo foi elevada à condição de Província com o nome de Paraná.

Fonte: Cláudia Inês Parellada, em ‘‘O Paraná Espanhol: Cidades e Missões Jesuíticas no Guaíra’’; João Carlos Vicente Ferreira, em ‘‘O Paraná e Seus Municípios’’.

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