Era o primeiro namoro de ambos e foi interrompido por 38 anos. Neste período, não se viram sequer uma vez. O relacionamento poderia ter sido retomado graças a uma carta de reconciliação, que acabou extraviada no correio. Décadas depois, se reencontram e percebem que o sentimento estava apenas adormecido, de forma alguma morto. Parece novela, mas é a história do casal Paulo Turci, 68 anos, bancário e professor aposentado, e Mirian Aparecida Silva Godoy, 62 anos, pedagoga também aposentada.
A carta que ambos enviaram à Folha de Londrina foi a ganhadora da promoção 'Quero Ser Notícia', realizada entre assinantes do jornal em junho - mês dos namorados - e que lhes rendeu a oportunidade de relatarem nesta página a incomum trajetória de seu amor. ''No período em que ficamos separados, nunca deixei de pensar nela'', suspira Paulo, que está casado há quase seis anos com Mirian, de quem é primo em segundo grau.
A história teve início em meados dos anos 50. Paulo morava em Londrina e Mirian em Tabatinga, interior de São Paulo. Na formatura de Ensino Fundamental (chamado anteriormente de Ginásio) de Mirian, então com 14 anos, Paulo foi seu padrinho. À época, eles já namoravam: nas férias, ele ia para Tabatinga e passava semanas com a amada. Após a formatura, Mirian se mudou para Araraquara para cursar o Ensino Médio.
Paulo seguiu na rotina de viajar para o interior paulista nas férias e, como a saudade era grande, no restante do ano mandava até cinco cartas por semana para Mirian. ''Em Araraquara, eu morava na casa de uma senhora. Ela ficava impressionada com a quantidade de cartas que chegavam'', conta Mirian. Quando ela completou 17 anos, Paulo a pediu em casamento. Foi neste ponto que a separação se tornou iminente.
As famílias de ambos se opuseram ao matrimônio por dois motivos - em primeiro lugar, pela questão do parentesco; segundo, a mãe de Mirian não queria que a filha fosse morar em Londrina. ''A cidade era muito nova, pequena, e muita gente dizia que por aqui só havia mato'', explica Paulo. Segundo Mirian, no início de 1959 a mãe dela a obrigou a escrever uma carta para o namorado, para desmanchar o relacionamento.
''Fiquei arrasado, era dor demais'', resume Paulo. Mirian chegou a pensar em ir para um convento. Um tempo depois, ela foi incentivada por uma prima a mandar nova carta, desta vez com explicações de que tinha sido obrigada a acabar com o namoro e propondo uma reconciliação. A correspondência, como o casal descobriu há poucos anos, nunca chegou. ''Eu já estava triste, e fiquei mais ainda, porque achei que ele tinha recebido a carta e não quis retomar o namoro. Aí ele casou'', recorda Mirian.
Paulo se casou em 1963. Mirian, no ano seguinte. Ele teve dois filhos, e ela, cinco. Por décadas, não se falaram. ''A mãe do Paulo me disse que a esposa dele era muito ciumenta, e me alertou para nunca procurá-lo'', diz Mirian. Nos anos seguintes, ela veio para Londrina algumas vezes, e em nenhuma delas tentou encontrar Paulo.
Em certa oportunidade, ele foi para Araraquara. Mirian soube, tomou coragem e foi até a casa onde ele estava hospedado. Foi informada de que Paulo havia dado uma saída. ''Depois descobri que a esposa dele o escondeu no quarto, para que ele não me visse'', afirma Mirian, às gargalhadas. A lembrança do namoro adolescente permanecia, mas era uma aposta em que ambos depositavam poucas fichas.
Em 1984, Mirian se divorciou. Em 97, Paulo ficou viúvo. Pouco tempo depois, ele telefonou para a mãe dela, em Araraquara. ''Sabe como é homem, fiquei com medo de levar uma espinafrada. Liguei para a mãe para saber primeiro como estava o clima'', justifica ele. Por meses, Paulo e Mirian se falaram apenas ao telefone. O constrangimento inicial logo foi superado por indícios de que o sentimento não havia se perdido.
''Um dia, eu a convidei para vir a Londrina. Ela tinha uma viagem marcada para a Europa, e eu a convenci a viajar comigo para Foz do Iguaçu antes'', lembra Paulo. ''Minha filha disse que, tanto tempo depois, eu não iria reconhecer o Paulo. Chegando na rodoviária, ainda dentro do ônibus, eu o vi. Parecia que o tempo tinha voltado'', conta Mirian.
Os dois ficaram dias juntos, mas ainda não tinham certeza absoluta de que assim deviam permanecer. Quando Mirian viajou para a Europa, para um passeio turístico por vários países, Paulo lhe telefonou todos os dias. O saldo da viagem foi uma conta telefônica de R$ 600 para ele e para ela a convicção de que ou ficavam juntos naquele momento, ou nunca mais. Reataram definitivamente.
Superada a lembrança amarga da separação, Paulo e Mirian realizaram seu casamento civil em 23 de setembro de 1998. Exatamente dois anos depois, se casaram na igreja, após o falecimento do ex-marido dela. ''Eu sinto que hoje nosso amor é mais maduro, mais consciente. Sabemos aproveitar melhor cada momento juntos'', diz Mirian. Outro casal talvez lamentasse o tempo perdido. Paulo preferiu encerrar a entrevista fazendo planos para as bodas de prata.

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