O Calçadão de Londrina também teu seu lado tranqüilo. Alheias ao corre-corre diário nas lojas e ao trânsito carregado das vias transversais, muitas pessoas ainda conseguem conservar a calma, ainda que com certa tristeza, como o senhor que na mocidade foi apelidado de Caruso por causa de seus dotes vocais.
De fala mansa e reticente, Benedito Gonçalves, 69 anos, nasceu em Serra Negra, interior de São Paulo, mas desde muito jovem seu destino foi zanzar pelo mundo até encontrar morada em Londrina. Hoje, Caruzo passa mais tempo no Calçadão do que no albergue, onde reside há anos. Datas ele não se recorda: ‘‘vim andando e parei aqui porque gostei. Hoje, aqui é muita casa’’.
Na praça Floriano Peixoto, onde antigamente os moços da cidade sentavam para apreciar a beleza das londrinenses – o famoso murinho da vergonha – casais apaixonados esperam de manhãzinha a abertura das lojas. Os balconistas Éricom Vinícius dos Santos, 19 anos, e Larissa Maiara Botelho Depieri, 17 anos, aproveitam os últimos minutos antes de ‘‘bater o cartão’’. ‘‘A gente vem mais cedo para namorar’’, dizem eles, que se conheceram no Calçadão. Noivos também já aproveitaram o cenário para uma foto inusitada de casamento. O piso de petit pavê serviu para emoldurar o beijo que marcou o grande dia de Jaime e Lilian Gonçalves. O resultado é uma obra de arte.
Na falta de um lugar para descansar, um casal de idosos traz de casa o próprio banquinho, enquanto percorre algumas lojas vagarosamente. A senhora não dá entrevistas. O marido, desconfiado, revela em poucas palavras que chegou em 1958, e ficou após ter conseguido trabalho na construção civil. Já o nome, isso é mais difícil de saber: ‘‘Meu nome não uso dar para ninguém’’, diz o senhor, relembrando o tempo em que o nome era o bem mais sagrado de uma pessoa.
Bem ao lado da agência do Banco do Brasil, num dos locais mais movimentados do Calçadão, o apontador de loterias José Ferreira Navarro Gomes, 57 anos, atende a todos sem pressa há quase 40 anos. ‘‘Já vi muita coisa por aqui, boa e ruim, mas só recordo mesmo é das coisas boas. Praticamente, aqui é minha segunda casa’’, comenta. Uma caderneta com o fiado da freguesia é sua companheira inseparável. Para os que não acreditam na sua fama de pé-quente ele revela: ‘‘em 16 de fevereiro de 1974, um rapaz que estava noivo ganhou 100 mil cruzeiros. Comprou num dia e casou no outro. O casal foi para Santa Catarina e voltou dois anos depois. A esposa veio, comprou outro bilhete e ganhou mais 50 mil cruzeiros’’. Fã de Roberto Carlos, ele só lamenta que o ‘‘rei’’ ainda não tenha circulado pelo Calçadão para ele se aproximar e pedir a biografia do cantor, único ítem que ainda falta à sua coleção.

mockup