O album de figurinhas feito com muita arte
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de janeiro de 1997
Fabiano Camargo 
Fotos de Kraw PenasO álbum e as figurinhas criadas em projeto de parceria da Noitibó e um grupo de gravadores curitibanos
Batman, Rei Leão e o futebolista Ronaldinho que se cuidem. O universo das figurinhas não é mais habitado exclusivamente por heróis dos quadrinhos, personagens de desenho animado e jogadores de futebol. Um álbum lançado pela livraria e editora tipográfica Noitibó, de Curitiba, transformou a velha mania de colecionar cromos em arte. Lançada no final de dezembro, a coleção da Noitibó é composta por 100 figurinhas impressas em xilogravura.
Não existe um tema central. A criatividade dos nove gravadores que participaram do projeto deu forma a animais estilizados, desenhos inspirados em culturas indígenas e formas psicodélicas. Tudo é feito artesanalmente, do álbum de 20 páginas, confeccionado em papel Kraft, até os pacotinhos, embalados à mão pelos próprios artistas. A impressão é em preto e branco, mantendo a tradição da xilogravura. O único toque mais sofisticado fica por conta do papel auto-colante no qual as figurinhas são produzidas.
O estudante José Canticas é um dos colecionadores que ficaram viciados nas figurinhas artísticas: elas são bem diferentes das outras
A novidade arrebanhou grupos de fanáticos, atraídos pela beleza das imagens e também pelo sentimento de resgate da infância que proporciona aos colecionadores - universitários, na sua maioria. A primeira edição, que teve cerca de 100 álbuns e três mil figurinhas, já está no caminho de se esgotar, segundo os idealizadores. A procura nos surpreendeu. Em março devemos fazer um relançamento, com o mesmo número de figurinhas, conta Carla Vianna, 32 anos, uma das proprietárias da Noitibó. A loja está cheia de gente que vem especialmente para trocar figurinhas e até jogar bafo. Vidros de automóveis e agendas também estão sendo decoradas com as xilogravuras adesivas.
Os primeiros
a completarem a
coleção serão
premiados
Por enquanto, as figurinhas (a R$ 0,50 o pacotinho) e o álbum (R$ 2,50) podem ser encontrados apenas na Noitibó e na loja de discos 801 (R. Duque de Caxias, 75). Quando sair a segunda edição, o grupo de artistas pretende vender a novidade também em cantinas de universidades. Uma festa para o novo lançamento deve acontecer no bar Dromedário, próximo ao Largo da Ordem.
Além de resgatar o hábito de colecionar figurinhas, o Álbum Noitibó tem o objetivo de divulgar mais a xilogravura. Pouco gente conhece a Xilo. E, na verdade, existe um desinteresse pela arte em geral: enquanto os shoppings estão cheios, muitas galerias e outros espaços culturais continuam vazios, diz Luciano Pohl, 24 anos, um dos gravadores que emprestaram sua imaginação ao álbum. Queremos mostrar que existem formas de expressão e lazer diferentes da televisão, vídeo game e computador.
A idéia é mostrar que existem formas de lazer e cultura longe da televisão e dos computadores, diz Luciano Pohl, gravador que participou do projeto
Símbolos astecas, desenhos inspirados nas imagens deixadas por índios de todo o continente e formas abstratas decoram o álbum. Cada página tem uma unidade: algumas trazem só passáros, enquanto outras retratam répteis, por exemplo. Como em toda a coleção, existem as figurinhas difíceis.
Escolhemos umas dez para serem as difíceis. Tiramos cerca de 50% delas de circulação. Sem esse tipo de mistério a coleção ficaria sem graça, conta Luciano, acrescentando que os primeiros que completarem a coleção vão ganhar prêmios como um jogo de memória com xilogravuras e um caleidoscópio.
A coleção fez muita gente revisitar a infância. Fazia uns quinze anos que não pegava num álbum. Me lembrei do tempo em que fazia o álbum do Flash Gordon, conta o estudante Marcelo Bogo, 26 anos. E essas figurinhas, por terem sido feitas à mão, têm um valor muito maior do que as convencionais. O tradicional passatempo de trocar figurinhas também está sendo resgatado.
Um grupo de
nove gravadores
participou
do projeto
É muito legal porque podemos conhecer pessoas dessa maneira, explica Silvana Reis, 22, outra estudante que anda correndo atrás das figurinhas. Teve um final de semana em que saí à noite e encontrei muita gente trocando as repetidas. Grupinhos se formavam só para isso.
A originalidade do álbum conquistou também fãs mais novos, como o estudante José Nicolas Azevedo Cânticas, 9 anos, que está quase completando sua coleção. As figurinhas são muito bonitas e bem diferentes de tudo que tem por aí, conclui.


