Fotos de Kraw PenasO álbum e as figurinhas criadas em projeto de parceria da Noitibó e um grupo de gravadores curitibanos

Batman, Rei Leão e o futebolista Ronaldinho que se cuidem. O universo das figurinhas não é mais habitado exclusivamente por heróis dos quadrinhos, personagens de desenho animado e jogadores de futebol. Um álbum lançado pela livraria e editora tipográfica Noitibó, de Curitiba, transformou a velha mania de colecionar cromos em arte. Lançada no final de dezembro, a coleção da Noitibó é composta por 100 figurinhas impressas em xilogravura.
Não existe um tema central. A criatividade dos nove gravadores que participaram do projeto deu forma a animais estilizados, desenhos inspirados em culturas indígenas e formas psicodélicas. Tudo é feito artesanalmente, do álbum de 20 páginas, confeccionado em papel Kraft, até os pacotinhos, embalados à mão pelos próprios artistas. A impressão é em preto e branco, mantendo a tradição da xilogravura. O único toque mais sofisticado fica por conta do papel auto-colante no qual as figurinhas são produzidas.



O estudante José Canticas é um dos colecionadores que ficaram viciados nas figurinhas artísticas: ‘‘elas são bem diferentes das outras’’

A novidade arrebanhou grupos de fanáticos, atraídos pela beleza das imagens e também pelo sentimento de resgate da infância que proporciona aos colecionadores - universitários, na sua maioria. A primeira edição, que teve cerca de 100 álbuns e três mil figurinhas, já está no caminho de se esgotar, segundo os idealizadores. ‘‘A procura nos surpreendeu. Em março devemos fazer um relançamento, com o mesmo número de figurinhas’’, conta Carla Vianna, 32 anos, uma das proprietárias da Noitibó. ‘‘A loja está cheia de gente que vem especialmente para trocar figurinhas e até jogar bafo’’. Vidros de automóveis e agendas também estão sendo decoradas com as xilogravuras adesivas.


Os primeiros
a completarem a
coleção serão
premiados


Por enquanto, as figurinhas (a R$ 0,50 o pacotinho) e o álbum (R$ 2,50) podem ser encontrados apenas na Noitibó e na loja de discos 801 (R. Duque de Caxias, 75). Quando sair a segunda edição, o grupo de artistas pretende vender a novidade também em cantinas de universidades. Uma festa para o novo lançamento deve acontecer no bar Dromedário, próximo ao Largo da Ordem.
Além de resgatar o hábito de colecionar figurinhas, o Álbum Noitibó tem o objetivo de divulgar mais a xilogravura. ‘‘Pouco gente conhece a Xilo. E, na verdade, existe um desinteresse pela arte em geral: enquanto os shoppings estão cheios, muitas galerias e outros espaços culturais continuam vazios’’, diz Luciano Pohl, 24 anos, um dos gravadores que emprestaram sua imaginação ao álbum. ‘‘Queremos mostrar que existem formas de expressão e lazer diferentes da televisão, vídeo game e computador’’.


‘‘A idéia é mostrar que existem formas de lazer e cultura longe da televisão e dos computadores’’, diz Luciano Pohl, gravador que participou do projeto

Símbolos astecas, desenhos inspirados nas imagens deixadas por índios de todo o continente e formas abstratas decoram o álbum. Cada página tem uma unidade: algumas trazem só passáros, enquanto outras retratam répteis, por exemplo. Como em toda a coleção, existem as figurinhas difíceis.
‘‘Escolhemos umas dez para serem as difíceis. Tiramos cerca de 50% delas de circulação. Sem esse tipo de mistério a coleção ficaria sem graça’’, conta Luciano, acrescentando que os primeiros que completarem a coleção vão ganhar prêmios como um jogo de memória com xilogravuras e um caleidoscópio.
A coleção fez muita gente revisitar a infância. ‘‘Fazia uns quinze anos que não pegava num álbum. Me lembrei do tempo em que fazia o álbum do Flash Gordon’’, conta o estudante Marcelo Bogo, 26 anos. ‘‘E essas figurinhas, por terem sido feitas à mão, têm um valor muito maior do que as convencionais’’. O tradicional passatempo de trocar figurinhas também está sendo resgatado.


Um grupo de
nove gravadores
participou
do projeto



‘‘É muito legal porque podemos conhecer pessoas dessa maneira’’, explica Silvana Reis, 22, outra estudante que anda correndo atrás das figurinhas. ‘‘Teve um final de semana em que saí à noite e encontrei muita gente trocando as repetidas. Grupinhos se formavam só para isso’’.
A originalidade do álbum conquistou também fãs mais novos, como o estudante José Nicolas Azevedo Cânticas, 9 anos, que está quase completando sua coleção. ‘‘As figurinhas são muito bonitas e bem diferentes de tudo que tem por a풒, conclui.

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