São Paulo - Trocar fraldas e dar banho. Levar as crianças ao colégio e frequentar as reuniões da escola. Ir ao supermercado em busca de comidinhas saudáveis e gostosas. Identificar vacinas e correr atrás de médico para prevenir ou remediar imprevistos. Participar com afinco da experiência adolescente, sabendo perdoar e importante sabendo pedir perdão. Cada vez mais, tudo isso faz parte do comportamento paterno nas novas estruturas familiares.
A presença crescente da mulher no mercado de trabalho, a adequação de horários e funções dos casais, o encontro de agendas entre pais separados são alguns fatores que têm contribuído para a proliferação do ''pãe'', aquele mix de pai com mãe. Especialistas sustentam que um novo pai está se construindo. ''O modelo já não é autoritário, daquele que detém todo o conhecimento e força, mas se trata agora de um pai que é vivo, próximo e pode até chorar'', afirma Dorli Kamkhagi, psicanalista com doutorado em psicologia clínica para as questões do amadurecimento.
Para Luiz Cuschnir, psiquiatra, coordenador do Centro de Estudos da Identidade do Homem e da Mulher (Iden) e autor de tese sobre o masculinismo, o pai hoje tenta equilibrar ''com imensa dificuldade'' a integração entre emoção e razão. ''Sofrendo toda a mudança dos paradigmas como homem, o pai aprende a ser mais humano consigo e passa a aproveitar mais dessa fonte de afeto e desafio que é a paternidade.''
Nas palavras de Dorli, o desafio tem levado à composição de novas cores e amores no ambiente da família. ''É algo como o pai andando e o filho vindo, um de encontro ao outro.'' Por mais singela que possa parecer, a imagem traduz o dia-a-dia e a iniciativa de quem se autodenomina ''pãe''. Três histórias mostram o esforço e a satisfação de homens que assumem condutas antes exclusivas do universo feminino.
Lavar a alma - O músico Fernando Fernandes Vieira, 34 anos, viu rotina e sensibilidade modificadas desde que nasceu sua filha Isabela, de 1 ano e 8 meses. ''Belinha agora é praticamente tudo na vida'', proclama. Parece uma frase típica de pai coruja, não fosse a reviravolta que a nenê promoveu nos seus hábitos. Como a esposa é webdesigner e ainda trabalha numa empresa do lado oposto ao bairro onde moram em São Paulo, ele vestiu a camisa de ''pãe'' e garante que ''não é sacrifício algum''.
''O fato de eu trabalhar à noite e nos finais de semana facilitou'', diz Vieira, com a ressalva de que seus ensaios e pesquisas diurnos sofreram redução ou adaptação. ''Quando Belinha era menor era quase impossível ensaiar, agora ela fica me ouvindo quando estou com o contrabaixo.'' Para navegar na rede, entretanto, a bebê quer mais participação, pois adora se aproveitar do colo paterno e mexer no teclado.
Entre as tarefas triviais, como dar comida, passear no jardim do condomínio e trocar fralda, o músico nomeia a hora do banho como a mais sensacional. ''A interação é mágica, tanto ela quanto eu saímos felizes da vida.'' Orgulhoso, Fernando comenta que, mesmo quando a babá está por perto, Isabela prefere cumprir o ritual do banho junto com ele.
A sensação ''de lavar a alma'' ao compartilhar uma atividade corriqueira com o filho também é mencionada por Oscar Ferreira Magi, 36. Morador de São Vicente, no litoral paulista, é separado desde o nascimento de Tiago que tem 13 anos, mora com a mãe na capital e só a partir dos 8 anos começou a passar férias na companhia do pai.
O ex-metalúrgico e atual motoboy desabafa sobre a dificuldade de convivência nos primeiros anos de vida do filho. ''O casamento malsucedido e as raivas foram descontados nele e, com os obstáculos, nossos encontros eram poucos.'' O tempo passou, as arestas diminuíram com a ex-mulher e houve a reaproximação com Tiago. ''De lá para cá, são muitos casos em que me vi no tal papel da mulher.''
Um episódio marcante foi na última temporada de julho durante o passeio em um sítio. ''Lá, precisávamos cozinhar, o que estou acostumado, mas para meu filho foi uma aventura.'' No admirável mundo da culinária, Tiago aprendeu que somente a água do macarrão precisa ser escorrida. ''Foi o máximo ele trazer um escorredor depois que coloquei o arroz no fogo'', rememora com divertimento. ''Ao derrubar alguns mistérios da cozinha para meu filho, me senti com a alma lavada.''

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