Não está longe o tempo em que fazer festa de aniversário era uma tarefa simples, e até divertida, para reunir a família em torno de uma atividade. Passava-se a noite de véspera enrolando brigadeiros e enchendo balões. Salgados? Ou a mãe fazia com a ajuda de uma tia, ou se encomendava na panificadora do bairro. Nada além de cozinhas, bolinhos de carne e empadinhas. Eram comuns, também, os panelões de cachorro-quente com molho caseiro, para a criançada comer com pão d’água, e o canudinho recheado de maionese (também feita em casa). Já o bolo da festa ficava geralmente por conta de uma avó com "mão para doce" - ou, requinte máximo, era encomendado para uma senhora conhecida como "boleira".
Roupa de festa, quem fazia era a costureira. Para ocasiões elegantes, mãe e filha iam juntas na modista - costureira mais sofisticada, que reproduzia com perfeição modelos publicados em revistas femininas. Finalmente, sempre havia tempo - e alguém da família para ajudar - na crítica tarefa de arrumar guarda-roupas, separar peças velhas, limpar prateleiras, conservar as louças de festa e organizar a casa como um todo.
O mundo globalizado mudou todo esse cenário, ao menos nas grandes cidades. Hoje não se faz festa - produz-se eventos. Para cada atividade há um profissional designado, contratado e devidamente pago. Quase todos têm suas profissões nominadas em inglês. A começar pelo produtor de festa, também chamado de party designer. Mães, avós, primos e tias são substituídos por cake designer, estilista ou fashion designer, DJ ou sound designer, personal stylist, personal cooker e até personal shopper.
São novos rótulos para conferir glamour a atividades antigas, ou demandas atuais que denotam transformações sociais? De acordo com especialistas, é uma mistura das duas coisas. A professora Lúcia Helena Rahme, coordenadora do curso de Gestão em Recursos Humanos da Unicuritiba, concorda que há um "novo verniz" para atividades que sempre existiram. E o principal motivo de terem surgido essas novas profissões demonstra a profunda mudança socio-cultural impulsionada pela entrada da mulher no mercado de trabalho - cada vez mais firme e forte, diga-se de passagem.
"As novas famílias não têm mais a mãe dentro de casa, dedicada a essas tarefas. Simplesmente não há tempo para dar conta de tudo, mas as necessidades não mudaram. Então surgem profissionais cada vez mais especializados para suprir serviços essenciais", observa a professora, lembrando que hoje é comum a profissão de "marido de aluguel" para realizar pequenos consertos na residência. Ela mesma, também uma profissional autônoma e mãe, se vê obrigada a contratar profissionais para dar conta de todas as tarefas da casa. "Eu adoraria ter uma tia que viesse arrumar os armários da minha casa uma vez por ano", ri. "Mas infelizmente ela não existe".
Professor do curso de Administração da Escola de Negócios da PUC-PR, Marciano Cunha vai mais longe na análise. Ele acredita que os rótulos - quase todos em inglês - para esses serviços são reflexo de uma sociedade que privilegia a imagem e o consumo. "Todos querem ser jovens e chiques. Ou pelo menos aparentar isso. Profissões como personal stylist, personal trainer e outras com nomes americanizados conferem essa aparência tão desejada, porque o público quer consumir saúde, beleza e bem-estar", aponta. Porém, explica Cunha, essas observações cabem a uma parcela específica da população, que tem acesso a informação e poder aquisitivo.
O outro lado da moeda é que a globalização espalha esse tipo de comportamento - e mesmo entre pessoas mais simples, das classes C e D, existe a tendência da busca pelo rótulo "chique". "Quem não pode pagar profissionais caros vai atrás dos genéricos, que também existem e se proliferam. De qualquer forma, copiam o comportamento de pagar para ter alguém fazer um serviço que poderia ter sido realizado de forma simples e caseira".
Marciano Cunha acrescenta que o setor de prestação de serviços tende a crescer, mesmo em meio a crise. Quem trabalha com as "novas" profissões tende a criar nomes e funções para, além de oferecer novidade e diferenciação, valorizar sua atividade e cobrar mais. "A moça que se intitula cake designer, que tem um website bonito, cartões de visita bacanas e oferece produtos criativos, ganha muito mais do que a boleira do bairro. Até porque atrai clientes de maior poder aquisitivo, que estão atrás de novidades e glamour", compara. De toda forma, para o professor e também consultor em desenvolvimento pessoal e profissional, o que se oferece - e se busca - é cada vez mais o serviço customizado, que traz o toque especial de ser atendido de forma única e pessoal.

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