Novos conflitos na AL não estão descartados
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sábado, 08 de março de 2008
Edson Pereira Filho <br>Especial para a FOLHA 
Apesar da trégua entre os presidentes do Equador, Rafael Correa, e da Colômbia, Álvaro Uribe, colocando um fim na crise diplomática iniciada há uma semana, um novo conflito não está descartado. De acordo com Geraldo Lesbat Cavagnari Filho, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE) da Universidade de Campinas (Unicamp), enquanto grupos guerrilheiros utilizarem faixas de fronteiras para fugir do cerco do exército colombiano, há o risco de novos confrontos, inclusive entre os países vizinhos.
As Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc) seriam o fator de desestabilização política na região, segundo o estudioso. Enquanto Uribe quer a rendição incondicional das Farc, o presidente venezuelano é suspeito de sustentar financeira e belicamente o grupo armado revolucionário.
Cavagnari explica que as Farc utilizam o Equador, a Venezuela e o Peru para fugir das forças colombianas. Bem próximo à faixa de fronteira destes países, guerrilheiros criaram os chamados santuários da guerrilha (clareiras em matas fechadas) para descansar, treinar e abastecer com armamentos e provisões.
Segundo o pesquisador, na década de 90, guerrilheiros colombianos chegaram a invadir e roubar fuzis do exército brasileiro. Os guerrilheiros foram perseguidos e executados em território colombiano, conta. Este episódio foi tratado como roubo pelas diplomacias dos dois países. A partir de então, o Brasil passou a rechaçar qualquer tentativa de criação de santuários de guerrilha em seu território.
Episódio
A desestabilização política na região foi deflagrada pela invasão do exército colombiano na caça e execução dos guerrilheiros das Farc em território equatoriano, em 1º de março. A inteligência do exército norte-americano teria interceptado os guerrilheiros perto de Santa Rosa (Equador), através de imagens de satélite. Fugindo do ataque, o número dois das Farc, Raúl Reyes, e outros 22 guerrilheiros foram mortos por bombas inteligentes disparadas por caças Super Tucanos colombianos.
Guerrilha
As Farc combatem o exército colombiano há 43 anos na região. O sustento da guerrilha, depois do declínio dos países socialistas, passou a ser a cobrança de pedágio de narcotraficantes, que utilizam rotas na Colômbia para negociar drogas dentro e fora do país. Segundo Cavagnari, a situação ficou mais grave em 1999, quando o governo norte-americano assinou com o então presidente colombiano, Andrés Pastrana Arango, o Plano da Colômbia, que previa a prisão de narcotraficantes para julgamento nos Estados Unidos. Para implementação deste plano, o governo dos EUA investiu US$ 4,130 bilhões em aviões, fuzis e outros equipamentos militares.
Paralelo ao apoio americano, Pastrana fez um acordo com as Farc, criando uma zona desmilitarizada de 42 mil quilômetros quadrados, para que os guerrilheiros pudessem se fixar. Porém as Farc nunca ocuparam a faixa, temendo ser uma armadilha. Em 2002, com a ascensão de Uribe ao poder colombiano, os guerrilheiros foram intimados a se render incondicionalmente. De lá para cá, cerca de 500 técnicos militares norte-americanos orientam a ação do exército colombiano contra os guerrilheiros e narcotraficantes.
Venezuela
Hugo Chavez, que mobilizou tropas após a invasão colombiana no Equador, apesar de não ser parte no conflito, se alinha ideologicamente com Evo Morales, presidente da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador. Dizendo-se marxista, Chavez estaria se aproveitando do conflito para se vingar dos Estados Unidos, que, entre outras coisas, ajudou na tentativa de golpe contra seu governo em 2002.
Chavez, diante das investidas dos EUA, resolveu ressuscitar o sonho de Simón Bolívar, militar venezuelano do início do século 19, que defendia a criação da Grã Bolívia, uma espécie de bloco político e econômico entre Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia. Cavagnari explica que Chavez faz isso para desviar a atenção da população venezuelana da crise de desabastecimento, inflação e descontrole da economia. Ele resolveu se intrometer no conflito tanto para provocar os americanos quanto para amenizar os problemas internos, diagnostica Cavagnari, que é introdutor de estudos de conflitos geopolíticos nas universidades do Brasil.
Jogo
O pesquisador afirma que Chavez fornece armas e dinheiro para as Farc. Em contrapartida, Chavez quer a libertação de figuras importantes seqüestradas pelas Farc, para depois pintar como o grande libertador da região. Dentro de seu plano maluco bolivariano, deduz. Cavagnari é mais incisivo quando afirma que Equador e Venezuela são anfitriões das Farc. O foco da discussão não é a soberania dos países, mas sim o fator de desestabilização que as Farc provoca na região, direciona.


