NOVAS USINAS - Norte Pioneiro pode virar imenso canavial
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de novembro de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Quando a cultura da cana chega a uma região, os agricultores arrendam suas propriedades, vão para a cidade e nunca mais voltam para o campo
João Caviglione,
Iapar
Precisamos saber quais as regiões afetadas com o plantio da cana.
Na minha cidade, (essa cultura) seria totalmente inviável
Efraim de Moraes, prefeito de Quatiguá
A indústria dá a cana e os incentivos, o produtor só vai mudar de cultura agrícola
Iza More, empresária e representante da IAB Corretora de
Agronegócio
Nessa semana, a empresária Iza More, representante da IAB Corretora de Agronegócios, empresa que tem sede em São Paulo (SP), anunciou, com exclusividade para a FOLHA, que estão sendo feitos estudos para a instalação de novas usinas de cana-de-açúcar no Norte Pioneiro paranaense. Cento e vinte mil hectares de terra daquela região devem ser ''invadidos'' pela cultura de cana, área superior aos 110 mil hectares ocupados atualmente pelos canaviais, que servem a três usinas e três destilarias de álcool que estão instaladas na região. As novas plantas industriais terão capacidade para moer seis milhões de toneladas por safra.
Há dez anos no mercado do álcool, a empresária não quis adiantar quais seriam os grupos que devem investir na região, mas relatou que trabalha diretamente com usineiros de São Paulo e comentou sobre o interesse de empresários dos Estados Unidos em plantar cana em solo brasileiro. ''Não posso revelar quais são os possíveis investidores para não causar especulação no mercado'', justificou.
Abrangendo 46 municípios, o Norte Pioneiro tem como características agrícolas a diversidade produtiva (veja info nesta página) e a agricultura familiar. Por isso, a possibilidade de a cultura da cana vir a prejudicar pequenos produtores preocupa. Como explica Iza More, os usineiros já estão buscado terras. ''Estamos à procura de áreas que essas indústrias possam comprar e, dessa forma, produzir a sua própria cana. Precisamos também de propriedades para arrendamento de 15 ou 20 anos.''
Cautela é a palavra chave
Na opinião de Efraim Bueno de Moraes, presidente da Associação dos Municípios do Norte Pioneiro (Amunorpi) e prefeito de Quatiguá (63 km ao sul de Jacarezinho), é preciso ter muita cautela para a escolha das áreas para instalação das usinas.
''Precisamos saber exatamente quais serão as regiões agrícolas afetadas com o plantio da cana. Sou contra o projeto se forem atingidas áreas de pequenos agricultores. Posso citar como exemplos a minha cidade, Quatiguá, e a vizinha Carlópolis, nas quais a cana seria totalmente inviável. Por outro lado, municípios como Andirá e Jundiaí do Sul apresentam grandes áreas de pastagens que poderiam receber a cana'', comenta.
Consultado pela FOLHA, o pesquisador de agrometeorologia do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), João Henrique Caviglione, recomenda que sejam feitos estudos mais apurados para a escolha dos locais para o plantio.
''De forma geral, quando a cultura da cana chega a alguma região, os agricultores arrendam suas propriedades para as usinas, vão para a cidade e nunca mais voltam para o campo. O Norte Pioneiro se caracteriza pela agricultura familiar. O problema do arrendamento é que o vínculo da usina com a propriedade é por tempo determinado, isso faz com que a terra não receba os mesmos cuidados que receberia caso fosse cuidada pelo próprio dono. O agravante é que o solo daquela região é classificado como siltoso e não é tão bom quanto o argiloso, da região de Londrina'', ressalta Caviglione.
Questionada sobre a possibilidade latente de prejudicar a agricultura familiar com a investidura das grandes lavouras canavieiras, Iza More rebate dizendo que a renda mensal dos pequenos e médios produtores pode até aumentar com o arrendamento para as usinas. ''A indústria dá a cana e os incentivos, o produtor só vai mudar de cultura agrícola.''
Cultura X meio ambiente
Quando se fala em cana-de-açúcar, existe também uma preocupação com o meio ambiente. Em áreas não mecanizadas é preciso queimar a palha da cana antes da colheita. A legislação brasileira deve proibir as queimadas, o que obrigará os usineiros a mecanizar toda a lavoura, gerando uma grande massa de trabalhadores rurais volantes, os bóias-frias, desempregados.
Um dos envolvidos no projeto de trazer as usinas para o Norte Pioneiro, o deputado estadual Luiz Cláudio Romanelli (PMDB) diz que é preciso atenção para evitar ou até amenizar esse problema social. Segundo ele, as usinas podem ser importantes para a região, que necessita de grandes empreendimentos. No entanto, é preciso atrair outros tipos de indústrias para garantir mais empregos.
''Hoje trabalham nas usinas e destilarias da região 16 mil trabalhadores rurais volantes. Com a proibição das queimadas, poderemos ter uma grade massa de desempregados. Além disso, cruzando dados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constatei que apenas 11 mil pessoas da região possuem ensino superior. Precisamos ficar atentos'', finaliza o deputado.
A FOLHA está preparando para as próximas edições reportagem especial para conhecer a verdadeira vocação do Norte Pioneiro


