Nota para casais grávidos
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quinta-feira, 06 de novembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
"Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia-volta, volta e meia vamos dar." As 77 duplas da platéia cantam junto com o instrutor. Todos levam as mãos à garganta, para sentir a vibração das cordas vocais, em uma emissão sonora próxima àquela que a criança que eles esperam vai ouvir. "O feto ouve especialmente a voz cantada", explica, ao microfone, do palco, o musicoterapeuta Fernando de Oliveira Pereira. Ele é autor de um cd com músicas para cantar aos filhos ainda na barriga além de um dos 44 profissionais voluntários que ministram o Curso Para Gestantes, realizado desde 1955, e o Curso Para Casais Grávidos, realizado onze vezes ao ano desde 1993.
A reportagem da FOLHA DE LONDRINA acompanhou a primeira das duas noites do evento dedicado aos casais - o próximo será realizado nos dois primeiros dias de dezembro. Os cursos fazem parte do programa Parto Amoroso, organizado pelo Centro de Apoio às Mulheres e ao Casal Grávido, o Cemuc. Graças ao esforço do corpo de voluntários e a quatro patrocinadores e diversos apoiadores, que se revezam em mini-palestras nos intervalos da programação, o curso é gratuito e pede como inscrição simbólica cinco novelos de lã a serem doados para instituições de caridade. Somente o aluguel anual do espaço na Sociedade Paranaense de Pediatria custa ao grupo R$ 12 mil.
O salão é para 200 pessoas e recebe na noite o menor público do ano, que já alcançou 120 casais em outras datas. Os aprendizes a pai e mãe acostumados a mensagens chatas, cafonas e de um didatismo pobre logo são surpreendidos pela destreza e humor dos palestrantes, que mais lembram professores de cursinho e tratam com naturalidade do momento do parto. As risadas correm soltas e a ansiedade dos casais logo aparece nas perguntas. O curso, ainda que breve, trata desde como arrumar a mala para levar à maternidade, aos cuidados com higiene e um exercício de psicodrama em que um dos pais da platéia é convidado a fazer o papel de uma grávida prestes a dar a luz.
"O foco aqui é no pai. Realizamos desde 1955 o curso para gestantes, mas eles nunca vinham. A participação do pai é muito importante para motivar a mãe em todo o processo. Afinal de contas, é o casal que está grávido", comenta a obstetra Virginia Merlin, 50, uma das coordenadoras. Por 24 anos, ela trabalhou ao lado da Doutora Elisa Checchia Noronha, a fundadora do grupo e a quem Virginia se refere respeitosamente como 'minha chefe'. "Imagine uma senhora de 80 anos sentada em uma mesa explicando para um grupo de 200 pessoas sobre uma posição para se ter relações durante a gravidez." Doutora Elisa deu aulas no curso até os 88 anos, pouco antes de falecer, aos 89, em 2000.
O medo de ser pai
Há quem esteja ali por vontade própria. Há, também, os que foram a pedido do médico ou ao saber que somente poderiam assistir ao parto caso fizessem o curso - algumas maternidades da cidade exigem o 'passaporte', uma espécie de certificado que cada participante ganha ao final dos dois dias e que possibilita ao pai acompanhar o parto. "No começo, tinha medo de entrar na sala do parto", assume Francisco Pichorim, 31, prestes a ser pai de Franciele, uma mistura entre o nome do pai e da mãe, Lilian de Castilho Pichorim, 30 anos de idade e grávida de cinco meses.
"Agora, estou um pouco mais tranqüilo. Mas só na hora vou saber se vou estar calmo o suficiente para acompanhar o parto", diz o marido. Mesmo antes da palestra com o musicoterapeuta, Francisco já sabia que era bom contar histórias para a criança na barriga - o palestrante sugeriu que uma boa idéia é contar uma mesma narrativa várias vezes e depois do nascimento experimentar fazê-lo novamente, o que seria reconfortante para o pequeno, uma vez que a memória passa a se estabelecer junto da audição, na 21ª semana de gestação. Francisco, porém, gosta mesmo é de assobiar. Lilian, a mulher, confirma e lembra que vai participar do Curso para Gestantes, que dura sete semanas.
Michelle Tunes, 27, é a única do grupo grávida de gêmeos. Novidade que ela recebeu como um segundo susto, uma vez que o primeiro chegou com a notícia da gravidez, que não havia sido planejada. Agora, já mais tranqüila, e os nomes definidos - Sophia e
Elisa devem nascer em dezembro -, ela foi ao curso de casais grávidos acompanhada de sua mãe, Eliane. "O pai das pequenas não poderia estar na sala. Ele tem pânico de hospital", explica. Por se tratar de uma gravidez de risco, o projeto Mãe Curitibana, da prefeitura, indicou acompanhamento pré-natal, no Hospital Evangélico, que por sua vez recomendou o curso. "É bem gostoso, um clima descontraído. Participar é um aprendizado", diz.
O casal mais jovem da platéia, Josieli Scremin, 19, e Cristiano Costa, 21, se diz surpreso. Participam pois Cristiano quer acompanhar o parto de Cristian. Antes de chegarem ao curso estavam se perguntando o que teria tanto para falar em duas horas e meia da primeira noite de curso. "Foi muito legal saber o que vai acontecer no dia. Dá para tirar bastante dúvida", completa o futuro pai Cristiano.


