Nosso futebol não tem futuro
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Carlos Alberto Pessoa 
Tenho cinco minutos para batucar 50 linhas. O que equivale a correr 100 metros em dez segundos. Tentarei. Minha pior marca é 100 metros em dez segundos. Cara pálida, prepare-se. Você nunca verá espetáculo como esse. Não há oh! não/ luar igual a esse do sertão.
Começarei com corte epistemológico (quá-quá-quá). Esporte é meio, não é fim. É educação. E não só física. É, sobretudo, educação moral. (Relaxe; não mencionarei Platão. Sequer a sovada e latina tradução mens sana in corpore sano. Mas não esquecerei Camus. Que escreveu: o que aprendi, aprendi nos campos de futebol. Ele foi goleiro. E grande moralista: Entre a lei e minha mãe, fico com minha mãe.)
Repito: esporte é meio, não fim. Esporte como fim é o Bebê de Rosemary com soluço, o Corcunda de Notre Dame de porre. Ora, esporte profissional é um fim em si mesmo. Logo, o esporte profissional é o meu, o seu, o nosso Corcunda de Notre Dame de porre. Que seduz e encanta as massas boçaloides, que encanta, seduz e imbeciliza as multidões solitárias, soma de nadas.
Esporte profissional não é esporte. Só é profissional. Como o nosso futebol profissional. Como o nosso suspeito, mal cheiroso, equívoco futebol profissional. Esporte é outra coisa. O assim chamado esporte profissional é espetáculo. Classificado na categoria show business. Isto é, porções iguais de lixo e tédio: 99% lixo, 99% tédio.
Escreverei sobre o futuro do espetáculo ou do esporte no Paraná? Ou sobre ambos? Par eu ganho, ímpar você perde. Um, dois, três! Quatro é par! Ganhei. Escreverei sobre os dois.
Antes que esqueça! Qual o papel do governo nisso tudo? Na área do esporte profissional, nenhum. Basta e fora! Na área do esporte propriamente dito, o papel do governo é fundamental. Ou esporte não é educação, saúde? Nesse sentido, tenho velha sugestão e nem é minha: esporte é atividade diária, cotidiana rotina. Ou praticamos esportes todos os dias nas escolas ou os esportes não terão nenhum futuro neste País, que teve muito futuro no passado.
Atençao! Esse não é um problema de falta de vontade política. O buraco é mais embaixo, para usar veneranda gíria: o problema é cultural. Ou melhor, de falta de cultura esportiva. Mais uma herança lusa? Coisa nossa, como o samba, a mulata e outras bossas? Não sei.
A propósito do esporte profissional. Sou otimista em relação a projetos como os do Rexona, da Hortência. E outros que pintarem. Nos quais o papel do governo é mínimo. Por que otimista? Porque os projetos atacam em duas frentes: na base, na revelação e polimento dos talentos em flor; e na cúpula, no moranguinho que fecha com chave de ouro o complexo processo. E sou otimista porque o Paraná saiu na frente, está na frente.
Em tempo. Qualquer que seja a modalidade do espetáculo, esqueça se não houver grana por trás, pelos lados e pela frente. Grana de empresas. E televisão. Sem televisão e sem grana, não há vida nem esperança para o esporte profissional. Sem excluir o velho e rude esporte bretão. Que nesses tristes trópicos também atende pela alcunha de futebol.
Qual o futuro do futebol no Paraná? Você quer que eu seja sincero, honesto e leal? Não há futuro para o futebol profissional no Paraná. Não futuro risonho e franco. Pela simples razão de que no Paraná não há um único grande clube de futebol profissional. Grande em escala nacional. Os nossos não têm onda curta. Não chegam a Ourinhos, Itararé. Não ultrapassam o Atuba. O que fazer? Pneumotórax ou cantar um tango argentino?
- Carlos Alberto A. Pessôa é jornalista em Curitiba


