À beira do alambrado que envolve o campo do Estádio Recanto Tricolor, as irmãs Marilsa e Marli Franco torcem, gritam e comandam as batidas no tambor. O som ecoa pelo gramado e empolga jogadores e torcida do Combate Barreirinha, um dos mais tradicionais clubes do futebol amador curitibano. O jogo contra o Vila Hauer não marca só a luta para permanecer na liderança da suburbana: é o encontro marcado de famílias, amigos e histórias.
  Ao lado de outras parentes, Marilsa e Marli são as líderes da Torcida Feminina Organizada do Combate Barreirinha. Em meio aos gritos de guerra e coreografias, o ingrediente principal é a alegria. ‘‘É nossa diversão do fim de semana, seja no sábado ou no domingo’’, revela Marilsa. A cunhada, Márcia Franco, destaca o clima familiar que envolve as partidas: ‘‘Todo mundo se conhece, existe um contato maior, coisa que não ocorre nos estádios normais’’.
  O envolvimento da comunidade também é o que atrai, há mais de 30 anos, o comerciante Alceu Fernando Matros. Nesses anos, ele já foi jogador do Combate, o irmão ocupou a presidência e os amigos estão espalhados a cada metro da sede campestre do clube. ‘‘Nesses tempos de desestruturação da família, isso aqui é um exemplo’’, considera. E se o Combate acabasse? ‘‘Nem dá para pensar nisso! Acho que acabaria a referência do bairro, as conversas nos bares durante a semana. O povo ficaria órfão.’’
  Dentro de campo o jogo é duro, difícil a cada lance. Engana-se quem pensa em encontrar no amador um futebol de pouco nível. ‘‘Tem cara que vem aqui e acha que vai ser fácil, mas encontra uma outra realidade’’, afirma o meio-campo Leandro, há quatro anos no Vila Hauer. Ex-jogador do juvenil do Coritiba, Leandro é o exemplo de que a disputa da suburbana exige determinação dos atletas. ‘‘Muita gente trabalha, tem seu emprego, então quando há treino durante a semana é um cansaço muito grande. Aí para pegar outra condução e vir treinar na noite de quarta-feira, tem que ter muito amor naquilo que faz’’, resume o meio-campista e capitão do Hauer, que de segunda a sexta dribla os problemas e ganha o sustento como pintor.
  Outro grupo forte entre os jogadores da suburbana é o dos ex-profissionais, com representantes em vários clubes. Na zaga do Combate, Guilherme, de 37 anos, é o destaque. Na carreira, passagens e títulos por clubes como Coritiba, Paraná, Fluminense, São Paulo e Guarani. ‘‘A gente que gosta de futebol, que vive essa paixão, encontra aqui uma forma de continuar a carreira’’, define, lembrando que a pressão da torcida por resultados também existe, mas não tão forte. ‘‘Aqui se valoriza mais o lado do esporte, da diversão, da confraternização. É um profissional mais relaxado, levado com a responsabilidade de se honrar o investimento feito na estrutura do clube.’’
  E buscar recursos para manter a estrutura é o desafio diário de presidentes e diretores dos clubes. Álvaro César Winhoski, o Césinha, é o presidente do Combate. E narra os ‘‘combates’’ que enfrenta para buscar patrocinadores e apoio. ‘‘Você não ganha nada para fazer isso, então boa vontade e determinação são fundamentais. Hoje temos sete patrocinadores do bairro, cuja verba vai para manter luz e água e financiar o lanche dos treinos. Fora isso, nossa renda é o faturamento do bar em dias de jogo.’’
  ‘‘Somos heróis’’, resume o diretor de futebol do Vila Hauer, Emilio de Faria Neto. Cuidando do clube há 42 anos, ele não hesita em considerar a suburbana o maior campeonato do Brasil. ‘‘É só ver o valor que todos dão, com colaboração de estrutura da Federação Paranaense de Futebol, da imprensa. Se não fosse importante, eles não viriam aqui’’, opina o diretor, que se orgulha de ter participado da conquista de mais de 20 títulos pelo Hauer. ‘‘Tenho prazer em dizer isso’’, comemora.

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