Noite chuvosa, sangue, culpa, fúria e indignação
Numa noite fraca de plantão do Siate, é possível absorver uma carga emocional que anos de literatura talvez não sejam capazes de proporcionar. Numa análise rasteira, as ocorrências que depois serão adicionadas a estatísticas frias trazem consigo toda sorte de sentimentos - tanto na sua motivação quanto nas reações que despertam.
Como a sensação de culpa: do motorista de 21 anos que poucos minutos antes havia pêgo emprestado o carro de uma amiga para em seguida o estraçalhar em uma árvore num canteiro do pontilhão da Avenida Dez de Dezembro com Juscelino Kubitscheck. Uma jovem de 21 anos, que estava no banco do carona, não sofre ferimentos graves, mas precisa ser levada para o hospital. ''Isso nunca tinha acontecido comigo. Isso não está acontecendo, eu estou dormindo, preciso acordar'', lamenta o motorista, consumido pelo arrependimento.
A fúria: do ensacador de 63 anos, principal suspeito de ter esfaqueado um servente de pedreiro de 35 anos no Jardim Paulista (Zona Norte), após uma briga motivada por um desentendimento num bingo. Quando a equipe do Siate chega, a vítima apresenta dois grandes ferimentos, um na mão direita, outro no abdômen. Seu sangue banha o chão da ambulância, a chuva lava seu sangue na calçada. Mesmo assim, não corre risco de vida. Indiferença: da moça que vê a poça vermelha e se queixa: ''A gente chega do trabalho e tem que ver uma cena dessas...''
A desconfiança: do homem de 42 anos, dono de um bar na Rodovia Celso Garcia Cid, no limiar entre Londrina e Cambé, que jura ter sido baleado por assaltantes que foram ao seu estabelecimento, embora o médico do Siate garanta que ele foi vitimado ''apenas'' por uma coronhada. Indignação: do irmão da outra vítima, um homem de 55 anos. ''É muita violência, não dá nem pra tomar uma cerveja em paz'', reclama.
É possível passar incólume a essa overdose de sensações e de cenas dramáticas? ''Muitas vezes atendemos pessoas que estão entre a vida e a morte. É estressante, mas com o tempo você se acostuma'', assegura o tenente Wilson Paulino. A afirmação pode ser comprovada pela forma como os socorristas tocam o plantão.
Após atenderem o rapaz esfaqueado se esvaindo em sangue, médico e bombeiros voltam ao posto e encomendam pizzas. Conversam sobre futebol, recordam-se de casos engraçados e da fama de ameaças à instituição do matrimônio que os bombeiros carregam. Indiferença à desgraça das vítimas? De jeito nenhum.
de
''Ainda hoje, quando atendo uma criança ferida, me dá uma sensação péssima. Aos poucos você aprende a separar, a não se envolver tanto. Mas o tempo todo temos consciência de que estamos lidando com vidas'', assegura Givaldo Santana. Em noites calmas, como a que a Folha acompanhou, os socorristas conseguem aliviar a necessidade de sono nos alojamentos. E dormem mesmo sabendo que a sirene pode despertá-los a qualquer momento para outro embate com a morte.





