Perto do fim da tarde o sol ainda castiga, e depois de percorrer a Saul Elkind de ponta a ponta, nosso cicerone embarca direto para o assentamento Vale da Lua, que fica dentro do Bairro Maria Cecília. Ali ele pretende visitar um amigo. Mas, antes, percorre de moto todo o assentamento. Ruas de terra e bem estreitas, que dão voltas e fazem curvas numa topografia
indefinida.
  Cada casa um caso, uma construção diferente. Tem casinha de tijolo baiano, tem casa de madeira, tem casa que ‘fechou’ com a laje e espera por uma festa, tem casa de resto de tudo – nessas, até as laterais dos berços de crianças desmontados são usadas para fazer a divisória do jardim.
  Entre todas as casinhas existem coisas em comum – uma delas é o varal, sempre exibindo uma fileira de roupa alvíssima e bem esticada para secar longe do chão de terra vermelha. Fraldas, camisetas de times de futebol, calças jeans, parecem esperar tranqüilas e sem medo de serem roubadas até que fiquem secas.
  Sem medo de usar e abusar das cores, na favela, as casas ganham tons vibrantes nas suas fachadas: abóbora, vermelho, verde e azul, nada fica sem uma pinturinha, para melhorar a habitação. O amarelo ganha portas e janelas.
  O local é limpo. ‘‘Ah! Isso é por conta de que o pessoal lá da reciclagem recolhe tudo’’, opina dona Francisca da Silva, 53 anos, cozinheira de mão cheia, enquanto descasca mandiocas fresquinhas, que acabou de pegar no terreno de baixo de sua casinha humilde, no Vale da Lua’’.
  A grande maioria das mulheres já está em casa nesse horário e a atividade da segunda jornada de trabalho é alta. As panelas de feijão chiam e o cheiro de toucinho se espalha na favela. A tarde fica vermelha enquanto a força feminina da periferia de Londrina planeja o dia de amanhã. No assentamento de hoje, as crianças brincam e parecem felizes. (M.A.A.)

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