O amor de um casal apaixonado ameaçado por um vilão. Um segredo do passado que vem à tona, perturbando a paz da mocinha. Uma trama misteriosa envolvendo fenômenos paranormais assusta moradores de uma pacata cidade. Quem nunca assistiu, por pelo menos alguns capítulos, uma novela televisiva com ingredientes como esses no roteiro? Às vezes existe até uma combinação de todos eles. Fórmula que, há cerca de quatro décadas, entretém os brasileiros, tornou-se produto para exportação e já mereceu até estudos acadêmicos.
O que muita gente desconhece - especialmente os mais jovens - é que esse modo de entretenimento - a novela - originou-se no rádio, veículo de comunicação que nos anos 1940 e 1950 significava ''glamour''. E engana-se quem pensa que, a exemplo do que acontece atualmente, Curitiba era apenas consumidora das produções realizadas nos chamados grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.
A capital paranaense teve participação significativa no desenvolvimento da comunicação via rádio, produzindo, inclusive, radionovelas que alçaram atores e atrizes à condição de ''celebridades'' locais. Boa parte dessa história está sendo resgatada por dois representantes daquela que ainda é chamada de época de ouro.
O radialista Ubiratan Lustosa, de 78 anos, lançou um site reunindo histórias e fotos da Rádio Clube Paranaense, chamada carinhosamente de ''Bedois'', em razão do prefixo de registro (PRB2). Lustosa foi diretor da emissora por 20 anos. Já o ator Sinval Martins, um dos principais ''galãs'' do radioteatro e da radionovela prepara um livro junto com a professora e pesquisadora Selma Sueli Teixeira, ainda sem data de lançamento, em que pretende contar sua trajetória e as experiências vividas no rádio e na tv.
O mineiro Sinval Martins, hoje com 75 anos, foi pioneiro em diversos segmentos artísticos de Curitiba. Tendo, por exemplo, integrado o elenco da primeira telenovela produzida no Paraná, ''A última carícia'', em 1964, de autoria de Paulo de Avelar. ''Foi um grande desafio'', lembra ele que, com a fama iniciada no rádio, era considerado ''um big star'' (grande estrela). ''As coisas vinham fáceis demais, mas eu sempre tive boa cabeça'', diz, referindo-se à vida boêmia que seduzia alguns artistas e ao assédio das fãs.
Depois de atuar como diretor de comunicação de uma grande empresa parananense, hoje extinta, mantém o grupo de teatro Espaço da Criança, dedica-se a ministrar palestras motivacionais e, de vez em quando, atua em espetáculos locais. ''O ator nunca se aposenta'', conclui.
''Em uma ocasião, decidi promover uma tarde de autógrafos do Sinval Martins na loja que funcionava embaixo da emissora (que, na época ficava na Rua Barão do Rio Branco, no Centro da capital). Foi uma loucura. Formou-se uma enorme fila de fãs'', recorda Ubiratan Lustosa, que como diretor artístico da Bedois entre 1957 e 1977, trazia para Curitiba artistas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Muitas apresentações aconteciam no próprio auditório da ''Bedois'', que chegou a manter um quadro de aproximadamente 400 funcionários e um elenco de 50 atores.
Sonho
''Existia algo que está faltando no Paraná: os ídolos daqui'', comenta Félix Miranda, outro representante da geração paranaense de radiotores. Ele, que hoje tem 69 anos e dedica-se ao estudo da Teosofia, diz que ''praticamente'' não ouve rádio, e lamenta que o veículo tenha deixado de lado uma des suas principais funções originárias, a difusão da cultura. ''O rádio era romântico e também divulgava cultura. Lembro de uma ocasião em que os produtores pesquisaram e fizemos um programa sobre o Cerco da Lapa'', comenta. Ainda adolescente, ele ingressou no elenco da Rádio Clube, onde já estavam Sinval Martins e Ary Fontoura - que segue até os dias atuais com uma bem-sucedida carreira na televisão.
O desejo de se tornar artista de rádio correspondia à intenção que muitos jovens têm hoje de realizar carreira na televisão ou nas passarelas como modelo. Em 1951, fazer parte do elenco de uma emissora de rádio era também o sonho de Irene Hetler, então uma adolesecente de 16 anos. Depois de vários testes, ela conquistou uma vaga em uma rádio de São José dos Pinhais. ''Meus pais me acompanhavam porque, naquela época, artista não era muito bem visto'', relembra. Irene tornou-se conhecida também como locutora, mas antes, adotou o ''sobrenome artístico'' Morais. ''Eu adorava a Simone Morais, que era radioatriz da Rádio Nacional e resolvi copiar o sobrenome dela'', explica. Há duas décadas, Irene, que casou-se com um técnico de som da emissora onde trabalhava, passou a desenvolver outra atividade que considera apaixonante: a natação. ''Já conheci vários lugares do Brasil participando de competições''.
''Duas coisas chamam a atenção: o volume de trabalho dos nossos radioatores e como o radioteatro era prestigiado pelos anunciantes nacionais'', ressalta Ubiratan Lustosa em um trecho do seu site. Ele é o único que ainda atua como radialista, mantendo um programa dominical na Rádio Educativa, o Revivendo, em que apresenta trovas e músicas antigas. ''Em geral, no rádio agora só ouço notícias'', diz.
Sinval, Ubiratan, Félix e Irene, além de ''testemunhas oculares da história da comunicação em Curitiba e no Paraná'' - para lembrar um antigo bordão radiofônico - revelam, com sua disposição e vivacidade, que cada fase da vida pode ser muito bem aproveitada. Com ou sem o reconhecimento público.

mockup