Professor honoris causa da Universidade de Coimbra, Evanildo Bechara tem a fórmula para identificar o despreparo dos cuspidores de regras: a visita aos mestres ou, por outra, a tradição. Em ‘‘Homenagem: 80 anos de Evanildo Bechara’’, o membro da Academia Brasileira de Letras, para onde foi eleito em 2000, dedica-se a comentar o contato com os mestres, sobretudo com o filólogo Said Ali (1861-1953), autor de ‘‘Dificuldades da Língua Portuguesa’’, que comemora um século neste ano e será reeditado pela ABL. Said Ali foi pioneiro ao adotar o prisma científico nos estudos filológicos e gramaticais. ‘‘Que é o prisma adotado hoje, como prova a lingüística, por isso ele avançou no tempo.’’
Bechara diz que Said abordava os assuntos com originalidade, como o problema da colocação de pronomes. Enquanto todos discutiam que palavras atraíam os pronomes, Said dizia ser absurda essa teoria da atração. ‘‘No fundo, os pronomes se colocam pelo ritmo da língua e, como o ritmo da fala brasileira não é igual ao da portuguesa, os brasileiros não podiam espontaneamente empregá-los como faziam os portugueses, ele dizia.’’ E isso não é a defesa de uma ‘‘língua brasileira’’.
Quando conheceu Said Ali, então um octogenário, o pernambucano Bechara era um adolescente de 15 anos, morador do Rio de Janeiro. O convívio durou 11 anos. ‘‘Ele me ensinou que devemos nos aproximar dos autores que cometem erros - e todos nós os cometemos - com menos freqüência.’’ A partir daí, ele soube separar os livros ruins, com os quais não deveria perder tempo precioso, das boas leituras.
Quanto aos conflitos entre os especialistas da língua, que na primeira metade do século 20 começavam nas páginas da imprensa para depois se tornarem rixas pessoais, Said Ali ensinou o seguinte ao pupilo: ‘‘Durante minha carreira briguei muito e dessas brigas não trouxe nenhum benefício para velhice.’’ Esse ensinamento calou fundo no aluno: ‘‘Nunca mantive uma polêmica azeda com os meus colegas.’’
Bechara é um homem que vai pelo caminho do meio. Ele buscou o equilíbrio. ‘‘No meu tempo, para um jovem subir, um dos expedientes usados era atacar os mais velhos.’’ Lançar argumentos contra os mestres consagrados se tornava um corredor para o iniciante angariar o que pretendia. O gramático pernambucano percebeu que não adotava a estratégia, ao receber um comentário elogioso de um de seus professores, o filólogo Antenor de Veras Nascentes (1886-1972): ‘‘Este, para subir, não atacou nenhum de seus mestres.’’ Ele os superou.
‘‘Se aprendemos com os mestres e se chegamos a um ponto mais longe, devemos ter gratidão e não palavras de menosprezo’’, diz Bechara. A evolução do tempo, segundo o filólogo homenageado, reservou um lugar para Said Ali e Nascentes, enquanto os jovens e suas críticas foram engolidos pela história sem nela fazer marcas. Evanildo Bechara está entre aqueles que deixam marcas. (F.Q.P./A.E.)

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