São Paulo - Às meninas, capas coloridas e cheias de ''frufru'' que fisgam pela estética e pelos dilemas existenciais. Aos garotos, obras de autores que expressam neuras e desejos do universo masculino com um pouco menos de, digamos, ''frescura''. Não é por falta de material que as prateleiras das livrarias não têm ainda a divisão ''livros para homens'' e ''livros para mulheres''. E nem por falta de ''líderes''.
Marian Keyes, autora de ''Melancia'' (200 mil exemplares vendidos no Brasil), consagrou-se viajando ao centro da alma feminina como poucas autoras de sua geração. Nick Hornby, do clássico ''Alta Fidelidade'', fez o mesmo aos rapazes falando de futebol e rock-and-roll com um conhecimento de causa irresistível.
E como ficaria se meninos e meninas trocassem de livros? Seriam torturados? Não suportariam o ''novo'' mundo? Fizemos o teste com a estudante de Rádio e TV Maria Carla Profeta, 22 anos, e com o historiador e editor da revista ''Mad'', Raphael Fernandes, 24. Ela, leitora voraz da literatura cor-de-rosa de Keyes. Ele, fã fervoroso de Hornby. O resultado foi uma verdadeira guerra dos sexos.
A brincadeira começou com a troca dos exemplares entre Raphael e Carla em uma das lojas da Livraria Cultura, em São Paulo. Aos risos, falaram amistosamente sobre seus ídolos com a certeza de que o parceiro faria uma boa leitura. Juraram que o troca-troca começava sem prejulgamentos. Sete dias em contato com as obras de Keyes e Hornby mudaram tudo.
No princípio, Carla foi bem. ''Estipulei ler tantas páginas por dia. No começo, tive mais facilidade, mas depois fui perdendo o interesse e o livro se tornou um pouco difícil de terminar.'' O excesso de citações musicais, tão grata aos fãs de Hornby, deixou Carla com uma certa ''preguiça''.
Do outro lado, Raphael lia no metrô e no ônibus. ''Tentei ler antes de dormir, mas 'Melancia' se mostrou um poderoso sonífero, seja pelo número de páginas (489) ou pela infantilidade do conteúdo.'' Foi quando teve uma recaída e recorreu à trilha sonora do filme ''Alta Fidelidade'' para digerir a tal ''Melancia''.
Ainda assim, Raphael e Carla gozaram de bons momentos durante a leitura. Carla garante que Hornby ''realmente consegue vetar qualquer pensamento feminino, ou feminista'', o que pode ser divertido. Ela adorou as ironias e a capacidade do autor de fazer o leitor acreditar que Rob, personagem central da história, é vítima das mulheres. ''O legal é que ele vai descobrindo que as coisas não são assim, quando fala com as ex-namoradas.''
Raphael reconhece que deu algumas risadas, mas bate o pé: não gostou mesmo do livro de Keyes. Não por machismo, que fique claro. Mas não encontrou na autora a versão feminina de Hornby. ''A história em si é até interessante, o problema é a forma como ela foi construída'', explica. ''A semelhança com os livros da Bridget Jones é gritante: a garota sem rumo passa por um momento de transformação e tem seus sentimentos por um amor perdido colocados à prova ao conhecer o 'homem perfeito'.'' Carla, óbvio, rebate e diz gostar de como Marian ''coloca os acontecimentos, o humor e o entrelace das histórias''.
Ainda nas trincheiras do que se tornou uma disputa de gêneros, Raphael dispara que as mulheres são bem melhores do que as ''neuróticas movidas a álcool e compras desenfreadas no cartão de crédito do ex-marido'', como as viu descritas em ''Melancia''.
Tudo bem, afinal Carla também se recusa a acreditar que ''o homem é sempre certo, que nunca faz algo que contribua para os problemas (de relacionamento)'', como uma sequência de ''Alta Fidelidade'' faz crer, em sua opinião.
No final, Raphael admite que as obras têm algo em comum: falam do desastre amoroso que impulsiona a busca pelo autoconhecimento. Mas que não se compare os autores, para não instigar o azedume do fã de Hornby. Contra ele, Carla usa alguma doçura para dar o veredicto e dizer que, sim, ''Alta Fidelidade'' é bom, embora machista. E não é melhor do que ''Melancia''.

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