Um mocó, um barraco, a rua. Tudo pode se tornar um lar para quem busca a ''liberdade'' de usar e vender drogas. Um dos entrevistados conta que aos sete anos mudou para um mocó na Avenida Santos Dumont. ''Era bom. Podia fumar pedra (crack) a qualquer hora.'' Acostumado a viver com amigos que fazia no dia-a-dia, passou três anos debaixo de uma ponte que lhe proporcionava assaltos e muito tempo ''chapado''. ''Teve vez que fiquei uns quatro dias sem dormir. Ficava só na pedra''.
Nesse mesmo mocó, ocorreram episódios que ele nunca irá esquecer: ''Foi lá que eu tive a minha primeira namorada. E foi lá que atirei pela primeira vez. Pedi 'pro' cara dar o tênis e ele gritava, 'qualé, meu, atira então'. Falei, falei, mas ele não dava o tênis. Daí eu atirei''.
Durante os primeiros assaltos, o garoto de nove anos era repreendido pelas famílias que 'visitava': ''Falavam pra eu parar de roubar, que era muito novinho, devia 'tá' na escola. Eu até concordava mas queria a pedra''.
Mesmo dominando o comércio de drogas em um dos bairros mais perigosos de Londrina, uma traficante confessa que não pode reformar sua casa, afastando-se de qualquer ostentação de riqueza material.
A casa de um chefe ou de um soldado do tráfico (como são chamados os menores convocados para a venda de drogas) reserva muitas semelhanças a aparência humilde, paredes descascadas, cores desordenadas e portas não muito reforçadas. Sob um olhar ingênuo, todas se parecem com todas, desde a residência dos traficantes até a dos ''jurões'', aqueles que não se envolvem com o que acontece no bairro.
Em muitas situações, os meninos se lançam ao tráfico sem sair de casa. Trazem armas e drogas para seus quartos, sem escondê-las da mãe. ''Minha mãe ia fazer o quê? Era melhor que eu continuasse a trazer 'prá' casa do que se eu saísse de lá''.
O garoto de 18 anos que nos mostrou suas armas estava na garagem de casa, com uísque, crack e maconha. Sua mãe observava tudo da cozinha com breves olhares durante o lavar das louças. Enquanto nos mostrava as armas, já utilizadas em três homicídios, a reportagem questionou: ''E sua mãe, não vai se preocupar com tudo isto aqui?''. A resposta foi seca: ''Não dá nada não''.

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