No início, irmãs eram vistas como inimigas do Brasil
Lembranças de um tempo difícil permanecem vivas na memória de Maria Alice Brugin de Arruda Leite, a primeira aluna matriculada no Colégio Mãe de Deus. Apesar de já terem se passado 70 anos, a ex-aluna se recorda de tudo, com detalhes, como se fosse ontem.
''Foi a Companhia de Terras Norte do Paraná que trouxe as irmãs pra cá. As pessoas queriam uma escola para seus filhos estudarem. Quando as irmãs chegaram aqui, elas só falavam alemão. Com carinho, foram aprendendo o português, elas nos trouxeram cultura'', diz Maria Alice.
Em 1936, dois anos depois que a cidade passou a existir, o colégio começou a funcionar. ''Era tudo muito difícil'', lembra Maria Alice, que foi sozinha fazer a sua matrícula. ''O barracão onde as irmãs começaram com a escola, ficava ali onde hoje funciona o Palácio do Comércio (Rua Minas Gerais). Papai que me falou: 'Filha, as irmãs vieram para ensinar vocês, vá até lá se matricular. Eu tinha 9 anos, e fui''.
Naquela época, os alunos da primeira turma recebiam aulas de teatro, religião, bordado e pintura. Maria Alice estudava em regime semi-interno, ingressava às 7h e só saía às 17h. A ex-aluna lembra que as irmãs não tinham posses e que sofriam perseguição das autoridades pois eram vistas como inimigas do Brasil, tudo isso devido a grande guerra que se alastrava pelo mundo em 1939.
''Para as refeições, nós tínhamos que levar os pratos, talheres e copo de casa. Para quem queria manteiga no pão, também tinha que levar de casa porque as irmãs não tinham para nos dar. Foi uma época muito difícil para elas'', conta Maria Alice.
Outra lembrança que permanece viva na memória da ex-aluna é a alegria que ela sentia em estudar no colégio. Ela conta que as irmãs comentavam sobre a vontade de construir uma capela, mas não tinham dinheiro. Sensibilizadas com a dificuldade das irmãs, Maria Alice e outras quatro alunas tentaram ajudar.
''No caminho da escola sempre passávamos por muitas construções. Então, cada uma de nós, pegava quatro tijolos para levar até o colégio. Ficamos fazendo isso por vários dias. Até que um dia já tinha uma pilha grande de tijolos. A irmã viu e ficou muito brava. Pediu para a gente devolver e mandou a gente confessar porque tínhamos cometido um pecado'', lembra Maria Alice.
Mais tarde, depois desse episódio, Maria Alice e as amigas ainda fizeram um ''caderno de ouro'', como era chamado naquela época uma lista de arrecadação de assinaturas e contribuições, para as irmãs conprarem o sino da capela. ''A cidade de Londrina deve muito às irmãs que saíram da Alemanha, deixaram tudo para trás, pra chegar aqui, naquele sertão, lecionar. Para mim, o Mãe de Deus é uma segunda família'', finaliza.(F.B.)





