As apresentações teatrais e musicais duram, em média, duas horas. Porém, três meses antes os produtores e técnicos do teatro já analisam os mapas de iluminação, o tamanho do cenário e quantos dias serão necessários para ''levantar'' o espetáculo. As pessoas que trabalham nesta área não enfrentam apenas o ego dos artistas, mas também muitas horas de trabalho e total dedicação.
A experiente Verinha Walflor traz para Curitiba cantores, atores e bailarinos há 38 anos. Sua maior dificuldade é conciliar as datas das apresentações com a agenda do artista. Em um de seus últimos trabalhos, trouxe Ney Matogrosso para única apresentação na cidade. Antes de Curitiba ele passou por São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre. ''Temos que deixar bem certo o dia da apresentação para não atrapalhar os outros destinos do show. Além disso, verificar as datas marcadas para outras cidades é importante, pois divido o valor das passagens com os outros produtores'', revela Verinha.
Quando alguma apresentação se aproxima, a produtora vai dormir 2 horas da manhã e 7 horas já está em pé. Uma das próximas atrações que Verinha irá trazer para a Capital é a cantora Maria Bethânia. As primeiras negociações para a realização deste show foram feitas em dezembro do ano passado.
Em quase quatro décadas de trabalho, Verinha já passou por situações difíceis. Uma delas aconteceu há alguns anos, quando uma estrela da MPB resolveu cancelar o show minutos antes de subir ao palco. ''Fiquei muito brava. Quis na hora saber o motivo, pois preciso prestar contas com o público que saiu de casa, comprou o ingresso e foi até o teatro''. Neste dia não teve jeito. A produtora foi até o palco dar a triste notícia aos fãs. ''Quando o produtor do artista chega e diz que vai cancelar, sem motivo aparente, tomo isso como uma ameaça. Um outro cantor também disse que iria cancelar pois não deixei ele entrar com amigas no teatro. Mas a cota de ingressos para o artista já havia sido entregue. Contornamos a situação e, no fim do show, ele veio pedir desculpa'', explica a produtora.
Em algumas situações o cancelamento é inevitável. A atriz Bibi Ferreira veio para Curitiba, convidada por Verinha, para apresentar uma peça em que cantava no palco. No dia da apresentação, Bibi já estava em Curitiba quando perdeu totalmente a voz. Verinha foi até a entrada do teatro para explicar pessoalmente ao público o que havia acontecido. Um mês depois Bibi voltou e a apresentação foi um sucesso. ''Temos que saber discernir se o motivo do cancelamento é um problema grave ou apenas uma loucura do artista''.
Cleverson Cavalheiro é o chefe de palco do Teatro Guaíra há 12 anos. Para ele, o trabalho com as equipes de outros espetáculos que se apresentam no Guaíra se torna mais fácil, já que o Teatro também produz os espetáculos para o Balé Teatro Guaíra e para a Orquestra Sinfônica do Paraná. ''Como temos esta experiência já sabemos o que os outros produtores precisam. Também levamos as atrações do Guaíra para outras cidades. Assim posso ver o que sentimos falta nos outros espaços para podermos oferecer aqui'', conta Cavalheiro, que trabalha com uma equipe de 35 técnicos.
Antes de assinar o contrato para uma apresentação no Guaíra, o chefe de palco precisa saber as informações necessárias para o bom andamento do espetáculo. Isso inclui o número de equipamentos que o show exige, os horários de ensaio, quantas pessoas integram a equipe e as exigências de contrato. Uma das últimas peças apresentadas lá foi ''Dom Quixote em Lugar Nenhum'', com Edson Celulari. Três meses antes os técnicos do teatro já conversavam com os produtores para definir o mapa de palco, o número de fiação, a quantidade de refletores e outros detalhes.
Um jogo do Brasil, na Copa do Mundo de 2002, fez com que os técnicos do Guaíra trabalhassem muito mais. Com a preocupação em terminar o trabalho cedo para assistir a partida, a equipe acabou montando o cenário de uma peça rápido demais. Quando todos estavam prontos para ver o jogo, uma parte do cenário caiu. O diretor da peça obrigou todo mundo a ficar para corrigir a falha. O jeito foi colocar uma televisão no palco e, entre uma martelada e outra, espiar os dribles da seleção brasileira.
Se de um lado Verinha Walflor traz para Curitiba grandes atrações, de outro existe Giselle Lima. Ela, assim como outros produtores da cidade, trabalha com espetáculos mais simples e baratos. Giselle é atriz e produtora do Pé no Palco, um espaço cultural que também promove cursos livres de teatro. Como ela mesma diz, as pequenas produções funcionam em formato de cooperativa. ''Geralmente o ator acumula mais de uma função na peça, como ir atrás dos adereços, arrumar a iluminação e também divulgar''.
Giselle nunca fez a produção de um grande espetáculo. No trabalho que realiza, acredita que os integrantes da equipe ficam mais unidos, como uma família. Fato que não acontece nos espetáculos maiores, onde muitos profissionais não convivem com toda a turma.
O mercado de pequenas produções em Curitiba possui considerável número de profissionais. Mas a produtora do Pé no Palco reclama do individualismo da classe artística local. Em algumas ocasiões, quando pede apoio para outros colegas em projetos que divulgam a arte na cidade, Giselle nem sempre recebe ajuda. ''Temos o objetivo de criar novas peças e fazer sucesso nos palcos. Se a classe fosse mais unida poderíamos conseguir isso com mais facilidade'', desabafa.
A dificuldade em conseguir patrocínio para projetos sem estrelas da televisão diminuiu. Segundo a produtora, os empresários estão mais abertos para apoiar a cultura local. O Pé no Palco trabalha com arte e educação, diferente de outros espaços culturais exclusivamente comerciais. O que ainda é difícil é atrair a atenção do público de alto poder aquisitivo para teatros menores. ''Fiz uma pesquisa e percebi que a classe A se concentra em lugares como o Guaíra, o Fernando Montenegro, entre outros. Eles ainda têm preconceito em assistir peças em espaços alternativos'', reclama Giselle.
Mesmo sem possuir o charme de teatros grandes ou de peças com artistas conhecidos do público, as pequenas atrações também têm seus diferenciais. No Pé no Palco, a produtora conta que um espetáculo nunca foi cancelado. O máximo foram alguns atrasos por problemas técnicos nos aparelhos de luz ou som. Nas produções menores, com artistas que vivem do teatro e da paixão que o palco lhes proporciona, o compromisso com o público fala mais alto.

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